Defesa de Bolsonaro aponta novas contradições em depoimento de Mauro Cid no STF

Ex-presidente é acusado de articular tentativa de golpe; defesa aponta falhas e inconsistências em delação de ex-ajudante de ordens.

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A defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) apontou nesta segunda-feira (9) novas contradições no depoimento de Mauro Cid, ex-ajudante de ordens e principal delator na ação penal que trata da suposta tentativa de golpe após as eleições de 2022. O depoimento de Cid foi realizado no Supremo Tribunal Federal (STF) e teve duração de quase quatro horas.

Segundo o advogado Celso Vilardi, responsável pela defesa de Bolsonaro, os relatos de Cid são inconsistentes desde o início. “Este é o sétimo depoimento, de novo diferente, não tem um depoimento idêntico”, afirmou. A matéria foi publicada pelo site Gazeta do Povo.

Áudio de Cid revela recuos de Bolsonaro após eleições

Durante o interrogatório, Vilardi apresentou um áudio gravado por Cid em 8 de novembro de 2022. Na gravação, Cid relata a um general que Bolsonaro teria desistido de qualquer ação mais contundente após a derrota eleitoral. O ex-presidente teria demonstrado que permitiria que os acontecimentos seguissem seu curso, inclusive com relação aos relatórios sobre as urnas eletrônicas.

Ainda segundo o áudio, Bolsonaro não teria pressionado nem o Ministério da Defesa nem o Partido Liberal em relação aos relatórios que analisavam o processo eleitoral. O áudio também menciona encontros com empresários, incluindo nomes como Luciano Hang, Meyer Nigri e representantes da Centauro e Coco Bambu. Nessa conversa, Bolsonaro teria dito que “o governo Lula vai cair de podre”.

Cid não confirma reunião com empresários no Alvorada

Ao ser questionado sobre a reunião com os empresários mencionada no áudio, Mauro Cid afirmou não se lembrar da mensagem nem do encontro. A defesa de Bolsonaro, então, alegou que não há registros da entrada desses empresários no Palácio da Alvorada.

Quando o ministro Alexandre de Moraes indagou sobre a reunião, Cid respondeu: “Não me recordo dessa mensagem… foi para quem essa mensagem?”. O advogado afirmou que o áudio foi enviado a um general. Cid indicou que poderia ter sido ao general Freire Gomes, mas manteve a alegação de que não se recordava da reunião.

Relatório do Ministério da Defesa teria sido alterado por pressão

Segundo a denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR), Bolsonaro teria pressionado o então ministro da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira, para alterar a conclusão do relatório sobre as urnas eletrônicas. O objetivo seria incluir a possibilidade de fraude, mesmo sem evidências.

Durante o depoimento, Cid confirmou que houve interferência. De acordo com ele, o relatório foi ajustado para alcançar um “meio termo” entre uma avaliação técnica e uma narrativa política. Cid declarou: “Não sei se foi por telefonema, conversa, reunião, mas pressão existia”.

Reunião com militares no prédio de Braga Netto levanta dúvidas

Outra inconsistência apontada pela defesa está relacionada à reunião entre militares das Forças Especiais, ocorrida em 12 de novembro de 2022 no prédio onde mora o general Walter Braga Netto. A denúncia afirma que, nesse encontro, foi discutido o plano denominado “Punhal Verde e Amarelo”, que teria como objetivo a execução do ministro Alexandre de Moraes.

No entanto, Cid afirmou que permaneceu apenas 15 minutos na reunião e negou ter havido qualquer plano concreto de golpe. Segundo ele, a conversa foi informal, marcada por críticas ao processo eleitoral. Cid ainda disse que sugeriu que os militares procurassem Braga Netto diretamente.

Pedido de “rascunho” e documentos apreendidos

Dois dias antes da reunião, Cid solicitou ao major Rafael de Oliveira que “rascunhasse alguma coisa”. A Polícia Federal interpretou isso como parte do planejamento de ações clandestinas, incluindo a elaboração do plano Punhal Verde e Amarelo.

Questionado sobre o plano, Cid declarou que só soube do conteúdo após a apreensão do documento com o general Mario Fernandes. Ele também mencionou um outro documento, Copa 2022, que teria entendido ser destinado a custear deslocamentos para acampamentos em frente ao Quartel-General do Exército.

Documento previa prisão de autoridades, segundo Cid

Durante o depoimento, Cid afirmou que Bolsonaro recebeu uma minuta de decreto que previa a prisão de ministros do STF, além dos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado. Segundo ele, o ex-presidente “enxugou o conteúdo”, retirando diversas ordens de prisão do texto original.

Defesa diz que Cid muda versão e apresenta esquecimentos seletivos

Ao final do depoimento, o advogado Celso Vilardi criticou o comportamento de Mauro Cid, destacando que ele “esquece tudo” sempre que confrontado com contradições. Segundo Vilardi, o depoimento deixou claro que nem Bolsonaro nem o próprio Cid tinham conhecimento pleno dos planos mencionados na denúncia.

Vilardi também mencionou mensagens em que Alexandre de Moraes era citado como “centro de gravidade”, expressão do jargão militar usada para designar um alvo principal a ser neutralizado. Segundo ele, essas informações devem ser esclarecidas pelo próprio ex-presidente, que prestará depoimento ainda nesta semana no STF.

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