Durante muitos anos, a creatina foi associada quase exclusivamente ao ganho de força e ao desempenho esportivo. Nos últimos anos, porém, o suplemento passou a despertar interesse também em outra área: a saúde do cérebro. Pesquisadores vêm investigando se a substância pode influenciar funções como memória, atenção e raciocínio, especialmente em situações de maior demanda energética, como privação de sono e envelhecimento.
Embora alguns estudos recentes apontem resultados promissores, especialistas destacam que as evidências ainda são insuficientes para afirmar que a creatina melhora o desempenho cognitivo de pessoas saudáveis ou previne doenças neurológicas.
Por que a creatina passou a ser estudada para o cérebro?
A creatina é produzida naturalmente pelo organismo e também pode ser obtida por meio da alimentação, principalmente pelo consumo de carnes e peixes. Sua principal função é participar da produção de energia nas células por meio da regeneração do ATP (adenosina trifosfato), molécula essencial para o funcionamento de tecidos com alta demanda energética.
Embora cerca de 95% da creatina do corpo esteja armazenada nos músculos, o cérebro também utiliza essa substância. Isso levou pesquisadores a investigar se aumentar seus níveis poderia beneficiar funções cognitivas que dependem de grande gasto de energia.
Estudos mostram resultados modestos em situações específicas
Parte das pesquisas encontrou pequenas melhoras em testes de memória, atenção e velocidade de raciocínio, principalmente em pessoas submetidas à privação de sono ou em idosos.
Um dos estudos que mais repercutiram foi publicado em 2024 na revista Scientific Reports. Nele, voluntários privados de sono apresentaram melhora discreta em alguns testes cognitivos após receber uma dose elevada de creatina. Os próprios autores, porém, ressaltaram que o trabalho envolveu um número reduzido de participantes e avaliou uma situação muito específica, o que limita a aplicação dos resultados para a população em geral.
Revisões científicas mais amplas também apontam que os resultados ainda são inconsistentes: enquanto alguns estudos identificam benefícios modestos, outros não encontram diferenças significativas entre quem utiliza creatina e quem recebe placebo.
O que dizem os especialistas?
Para médicos e pesquisadores da área de nutrição, ainda não há evidências suficientes para tratar a creatina como um suplemento capaz de melhorar o desempenho intelectual de qualquer pessoa.
Segundo a Sociedade Internacional de Nutrição Esportiva (ISSN), a eficácia da creatina para aumento de força e desempenho físico é amplamente comprovada. Já os possíveis efeitos sobre cognição permanecem em investigação e exigem estudos maiores e de longo prazo para confirmar quem realmente pode se beneficiar da suplementação.
Creatina não demonstrou benefício em doenças neurológicas
A substância também foi testada em doenças como Parkinson, esclerose lateral amiotrófica (ELA), doença de Huntington e esclerose múltipla.
Até o momento, grandes ensaios clínicos não demonstraram benefícios relevantes na evolução dessas condições. Por isso, especialistas afirmam que a creatina não deve ser considerada um tratamento para doenças neurodegenerativas com base nas evidências atualmente disponíveis.
Suplemento continua sendo considerado seguro para a maioria das pessoas
Quando utilizada nas doses recomendadas e por pessoas saudáveis, a creatina é considerada um dos suplementos mais estudados em relação à segurança. Ainda assim, seu uso deve ser orientado por um profissional de saúde, principalmente no caso de pessoas com doenças renais, hepáticas ou outras condições que exijam acompanhamento médico.
Além disso, especialistas lembram que nenhum suplemento substitui hábitos já conhecidos por favorecer o funcionamento do cérebro, como alimentação equilibrada, prática regular de atividade física, sono adequado e controle de fatores de risco cardiovasculares.
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