Antes de se tornar uma das principais plataformas para vacinas contra a Covid-19, o RNA mensageiro foi tratado com desconfiança por parte da comunidade científica. Nos anos 1980, a bioquímica húngara Katalin Karikó defendia o uso da molécula como ferramenta terapêutica, apesar da resistência de outros pesquisadores.
O RNA mensageiro leva instruções temporárias para que as células produzam proteínas específicas, sem interferir no DNA. Na época, porém, o RNA sintético era considerado instável e associado ao risco de provocar inflamações severas.
Descoberta decisiva
Durante os anos 1990, Karikó continuou a pesquisa na Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos. Ela teve pedidos de financiamento negados, perdeu espaço no laboratório e foi rebaixada na carreira acadêmica. A trajetória mudou com a parceria com o médico imunologista Drew Weissman.
Em 2005, os dois demonstraram que a alteração química da uridina, uma das bases do RNA, conseguia bloquear a reação inflamatória que preocupava os cientistas. O resultado abriu caminho para o uso da tecnologia na transmissão de instruções às células.
Ainda vista como arriscada pelas empresas farmacêuticas, a plataforma ganhou espaço em 2020, quando Pfizer e Moderna recorreram ao método para desenvolver vacinas contra a Covid-19. Estimativas publicadas na revista The Lancet apontam que elas salvaram aproximadamente 20 milhões de vidas no primeiro ano de aplicação em massa.
Karikó e Weissman receberam, em 2023, o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina. No Brasil, foram investidos R$ 210 milhões em plataformas de RNA mensageiro. A Fiocruz solicitou à Anvisa autorização para ensaios clínicos de uma vacina desenvolvida integralmente no país, enquanto a Universidade Federal de Minas Gerais conduz projetos semelhantes.
