Polícia Federal revela ordem de trégua do Comando Vermelho durante reunião do G20 no Rio de Janeiro

Polícia Federal interceptou mensagens revelando que a facção paralisou roubos e confrontos por sete dias, em meio ao evento com 55 delegações.

6 Minuto de leitura

A Polícia Federal (PF) descobriu que a facção Comando Vermelho (CV) determinou uma trégua de sete dias em fevereiro de 2024, durante a realização da reunião do G20 no Rio de Janeiro. As informações foram obtidas por meio de mensagens interceptadas com autorização judicial e reveladas pelo jornal O Globo. As conversas são atribuídas a Arnaldo da Silva Dias, o Naldinho, integrante do Conselho Permanente do CV, que está preso na Penitenciária Gabriel Ferreira Castilho (Bangu 3), no Complexo de Gericinó.

Segundo a PF, a ordem visava suspender roubos e confrontos armados em toda a cidade. O motivo seria um pedido feito por um “representante das autoridades no Rio”, conforme relatado pelo criminoso em mensagem de 22 de fevereiro. A identidade desse representante não foi confirmada pela investigação.

Reunião do G20 ocorreu na Marina da Glória

No dia 22 de fevereiro de 2024, ministros das Relações Exteriores dos países do G20 se reuniram na Marina da Glória, no Rio de Janeiro. O evento contou com 55 delegações, incluindo organismos internacionais. A facção determinou a trégua exatamente nessa data. No comunicado, Naldinho afirmou que o pedido teria sido feito de forma respeitosa e que todos os chefes do CV haviam concordado com a suspensão das atividades ilegais.

Texto revisado antes da divulgação

Antes de divulgar o “salve” aos membros da facção, Naldinho enviou uma versão inicial do texto a Edgar Alves Andrade, conhecido como Doca, líder do Complexo da Penha. A primeira versão do comunicado continha uma ameaça direta de punição. Após a revisão por Doca, que apagou seus comentários, a versão final foi alterada para um tom mais neutro.

A mensagem original foi seguida de outros comunicados reforçando a ordem. Em 1º e 6 de março, novos textos reiteravam a proibição de roubos de veículos e outras atividades que poderiam comprometer a imagem da facção durante o evento internacional.

CV resolve disputa por ponto de venda

Outro “salve” de 1º de março detalha como o Conselho Permanente arbitrou uma disputa entre traficantes sobre o controle de uma boca de fumo. Naldinho relatou que a decisão foi tomada em consenso, após um dos envolvidos retornar de internação hospitalar. Ele afirmou que a escolha dos responsáveis foi baseada em votação anterior e confirmada por “bom senso”.

Aliança entre CV e ADA foi oficializada

No dia 25 de fevereiro de 2025, Naldinho comunicou a criação de uma aliança entre o Comando Vermelho e a facção Amigos dos Amigos (ADA), após décadas de conflitos. A mensagem informava que a guerra estava encerrada e que moradores poderiam circular livremente entre áreas dominadas pelas duas facções. Também foram estabelecidas regras para evitar migração de integrantes entre os grupos.

Em novo comunicado, de 4 de março, a aliança foi formalizada com diretrizes claras sobre o respeito aos territórios de cada facção e restrições a mudanças de facção por criminosos presos ou em liberdade.

Facção promove rifa com fuzis como prêmio

Em 3 de março, Naldinho divulgou aos integrantes do CV uma rifa com dois fuzis AR calibre 5,56 como prêmios. Cada número foi vendido por R$ 500, com sorteio marcado para 16 de março, baseado no resultado da Loteria Federal. A Polícia Federal não obteve informações sobre quem venceu a rifa.

Indícios de tentativa de fuga em massa

Mensagens analisadas pela PF indicam que Naldinho, também conhecido como Samuray, participou do planejamento de uma fuga em massa do Complexo de Gericinó. Em uma conversa com Doca, mencionou-se a destinação de R$ 20 mil do caixa da facção. Segundo o diálogo, o valor teria sido usado para construção de um túnel.

Meses depois, agentes da Secretaria de Administração Penitenciária (Seap) encontraram um túnel no Presídio Vicente Piragibe, também em Gericinó. Como a construção não foi concluída, não houve fuga. A PF considera fortes os indícios de ligação entre os recursos e a obra.

Histórico de tentativa de fraude e pedido de transferência

Naldinho já havia tentado sair da prisão de forma ilegal em 2021, quando a Seap interceptou um alvará de soltura falso em seu nome. Após a fraude, ele foi transferido para o presídio de segurança máxima Bangu 1. Em novembro de 2024, a PF solicitou sua transferência para um presídio federal. O Ministério Público também endossou o pedido. Até o momento, não houve decisão judicial sobre a transferência.

A defesa do traficante alegou à Justiça que “não há como identificar a pessoa que se utilizou da linha telefônica” e que “não há conduta praticada pelo apenado capaz de incluí-lo no sistema penitenciário federal”.

Partilhe esta notícia