A múmia de Ötzi, o Homem do Gelo, tem 5.300 anos e ainda abriga microrganismos ativos. Investigações genéticas detalhadas sobre os vestígios biológicos do cadáver revelaram que ele funciona como um ecossistema microbiano dinâmico, não apenas um fóssil congelado.
Ao mapear o material genético coletado dentro e fora da múmia, cientistas identificaram linhagens de fungos adaptados ao frio das montanhas alpinas onde Ötzi morreu. Esses organismos colonizaram os tecidos logo após a morte e permaneceram congelados por milênios, mas mantiveram capacidade de reativação.
Parte desses microrganismos vai além da latência: há sinais de multiplicação lenta em microbolsas de umidade da estrutura orgânica. O achado indica que a atividade fúngica e bacteriana em tecidos arqueológicos pode superar o que a ciência previa, impactando diretamente os protocolos de conservação de restos mortais antigos.
O corpo é mantido no Museu de Arqueologia do Tirol do Sul, a -6°C e 99% de umidade, tentando replicar o ambiente original do glaciar. Mesmo assim, a levedura Glaciozyma apresentou menor degradação de DNA em exames recentes do que nos testes de 2010, sugerindo proliferação ativa mesmo sob congelamento artificial.
O que o microbioma de Ötzi revela sobre o passado
O material microbiológico preservado na múmia oferece um retrato único da composição bacteriana humana na Idade do Cobre, antes das transformações causadas pela industrialização e pela urbanização.
No trato digestivo de Ötzi, pesquisadores encontraram bactérias intestinais ancestrais praticamente extintas nas populações urbanas modernas. Essas cepas raras ainda aparecem em comunidades contemporâneas com estilos de vida tradicionais e não industrializados, o que ajuda a traçar a linha do tempo de como os hábitos modernos, medicamentos e saneamento alteraram o perfil biológico da espécie.
No inventário fúngico da superfície do cadáver, leveduras como Glaciozyma, Goffeauzyma, Mrakia e Phenoliferia foram isoladas com parentesco genético de fungos encontrados na Antártida. Os danos acumulados no DNA desses organismos atestam sua antiguidade, mas a descoberta gerou um alerta: os genes mapeados indicam que essas leveduras têm capacidade de consumir os produtos químicos aplicados nas décadas anteriores para proteger a múmia.
O que mais os exames revelaram sobre Ötzi
Além do mapeamento microbiológico, décadas de exames permitiram traçar um retrato detalhado da saúde e da morte do caçador, que tinha 46 anos.
O estômago de Ötzi abrigava a bactéria Helicobacter pylori, associada ao surgimento de úlceras e tumores gástricos. Ele também sofria de problemas cardiovasculares crônicos, evidenciados por depósitos de cálcio nas paredes do coração.
Seus últimos momentos foram violentos. Um corte profundo na mão e uma ponta de flecha alojada no ombro indicam uma briga. O ferimento no ombro rompeu vasos vitais e provocou a hemorragia que levou ao óbito nas montanhas.
O exame externo identificou ainda 61 tatuagens espalhadas pelo corpo, consideradas o registro mais antigo dessa prática artística e medicinal no planeta.
Para separar os microrganismos originais das contaminações modernas, os pesquisadores combinaram sequenciamento genômico duplo com cultivo em laboratório. Bactérias como Methylobacterium e Sphingomonas foram classificadas como contaminações recentes do manuseio no museu, enquanto o Staphylococcus foi associado ao microbioma original do caçador, demandando novos testes para determinar sua linhagem histórica exata.
