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O Paraguai pode ter a solução para acabar com a dependência mundial do gás natural na produção de alimentos, e Itaipu é a peça central do plano

Durante décadas, a produção de fertilizantes no mundo ficou diretamente ligada ao gás natural. Isso significa que qualquer crise energética, conflito geopolítico ou problema em rotas comerciais estratégicas pode impactar a agricultura global e, consequentemente, o preço dos alimentos. Agora, um projeto liderado pelo Paraguai…

Vista aérea da Usina Hidrelétrica de Itaipu entre Paraguai e Brasil, destacando a infraestrutura de energia renovável para produção sustentável.
Itaipu Binacional: a usina que pode liderar a transição energética paraguaia para substituir o gás natural na agricultura mundial.

Durante décadas, a produção de fertilizantes no mundo ficou diretamente ligada ao gás natural. Isso significa que qualquer crise energética, conflito geopolítico ou problema em rotas comerciais estratégicas pode impactar a agricultura global e, consequentemente, o preço dos alimentos. Agora, um projeto liderado pelo Paraguai quer mudar justamente essa lógica usando energia renovável gerada pela usina de Itaipu.

A proposta vem chamando atenção de investidores internacionais, especialistas em energia e gigantes do setor agrícola porque aposta em um modelo considerado inédito em escala industrial: fabricar fertilizantes nitrogenados sem depender de combustíveis fósseis. A iniciativa gira em torno da construção de uma nova planta em Villeta, avaliada em cerca de US$ 665 milhões, comandada pela empresa britânica Atome.

O que o Paraguai quer fazer com a energia de Itaipu

A grande aposta do projeto está no uso da eletricidade produzida pela hidrelétrica de Itaipu, compartilhada entre Paraguai e Brasil. Em vez de utilizar gás natural para obter hidrogênio — processo tradicional da indústria de fertilizantes — a ideia é separar o hidrogênio da água por meio da eletrólise, usando energia limpa.

Na prática, isso cria uma alternativa considerada mais sustentável e menos vulnerável às oscilações do mercado internacional de energia. O hidrogênio obtido dessa forma é chamado de “hidrogênio verde”, justamente porque sua produção não depende de fontes fósseis.

A estratégia também muda a forma como o Paraguai utiliza sua energia excedente. Historicamente, parte dessa eletricidade era exportada para países vizinhos a preços relativamente baixos. Agora, o país tenta transformar esse recurso em uma indústria de alto valor agregado, capaz de gerar empregos e ampliar sua influência no setor agrícola.

Foto: Reprodução/ANV Travel

Por que o mundo ainda depende tanto do gás natural

Hoje, boa parte dos fertilizantes nitrogenados usados na agricultura mundial nasce de um processo químico altamente dependente do gás natural. O problema é que isso deixa toda a cadeia agrícola vulnerável a crises internacionais, principalmente em períodos de tensão envolvendo grandes produtores de energia.

Nos últimos anos, conflitos no Oriente Médio reacenderam discussões sobre segurança alimentar justamente porque uma parcela significativa das exportações globais de fertilizantes passa pelo Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais estratégicas do planeta. Quando há risco de bloqueios ou instabilidade na região, cresce o temor de desabastecimento e disparada nos preços.

É nesse cenário que o projeto paraguaio começou a ganhar relevância internacional. A proposta não é apenas produzir fertilizantes de forma mais limpa, mas criar uma espécie de proteção regional contra oscilações provocadas por guerras e sanções econômicas.

A vantagem que pode tornar o plano viável

Durante muito tempo, o hidrogênio verde foi tratado como uma tecnologia promissora, porém cara demais para competir com os modelos tradicionais. O diferencial do Paraguai está justamente no custo da energia elétrica.

Com acesso abundante à geração hidrelétrica de Itaipu, o projeto acredita conseguir operar com eletricidade a preços suficientemente baixos para tornar a produção competitiva em larga escala. Essa é considerada uma das peças centrais da estratégia econômica da fábrica.

Além disso, a iniciativa já conseguiu apoio financeiro de instituições internacionais e fundos ligados ao setor de energia limpa. Parte do investimento vem de organizações de desenvolvimento e de grupos especializados em hidrogênio verde, algo visto como um sinal de confiança no potencial do projeto.

O acordo que chamou atenção do mercado internacional

Outro detalhe que fortaleceu a credibilidade da iniciativa foi o contrato firmado com a Yara International, uma das maiores empresas de fertilizantes do mundo. A companhia assinou um acordo de longo prazo para comprar toda a produção prevista da planta de Villeta durante dez anos.

A expectativa é que a unidade produza cerca de 260 mil toneladas anuais quando entrar em operação, prevista para 2029. Embora isso ainda represente uma fatia pequena do mercado global, analistas enxergam o projeto como uma prova de conceito importante para o futuro da agricultura.

Na visão de investidores e executivos do setor, o Paraguai pode mostrar que existe um caminho economicamente viável para produzir fertilizantes sem depender diretamente do gás natural. Se o modelo funcionar em escala industrial, outros países com forte geração de energia renovável podem tentar seguir a mesma rota.

O que está em jogo além da fábrica

Mais do que uma nova planta industrial, o projeto acabou entrando em uma discussão muito maior sobre segurança alimentar e independência energética. Isso porque fertilizantes são fundamentais para a produtividade agrícola moderna, especialmente em regiões que exportam grandes volumes de alimentos, como a América Latina.

Muitos países latino-americanos ainda dependem da importação desses insumos, mesmo sendo potências agrícolas. Por isso, a possibilidade de produzir fertilizantes dentro do continente usando energia renovável passou a ser vista como uma alternativa estratégica.

Mesmo que a fábrica de Villeta não transforme imediatamente o mercado mundial, ela pode servir como um modelo para uma nova geração de indústrias menos expostas às crises do petróleo e do gás.

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