Depois de tentativas frustradas com árvores, 500 tartarugas ajudaram a criar áreas verdes em pleno deserto

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Uma experiência no Sahel, a faixa de terra que separa o deserto do Saara das savanas africanas, está mudando a forma como cientistas encaram o combate à desertificação. A introdução de 500 tartarugas-de-esporas-africanas em uma área severamente degradada mostrou que a chave para reverter esse processo pode ser biológica, não mecânica.

A iniciativa surgiu após décadas de tentativas caras e pouco eficientes baseadas no plantio massivo de árvores, que tinham dificuldade para sobreviver no clima hostil. Com a chegada dos répteis, imagens de satélite passaram a registrar manchas verdes avançando pela terra exposta. A vegetação rasteira que surgiu atraiu insetos, aves e pequenos vertebrados para uma região antes considerada estéril.

A engenharia subterrânea contra o calor

O mecanismo por trás dessa transformação está ligado ao instinto de sobrevivência das tartarugas. Para escapar do calor extremo do dia, que frequentemente supera 60 °C, e do frio intenso da noite, os animais cavam abrigos subterrâneos que chegam a dez metros de profundidade. É essa escavação que altera as propriedades físicas do solo desértico.

Ao romper a crosta endurecida da superfície, as tartarugas expõem sementes nativas que estavam latentes, dando a elas a chance de germinar. As galerias também funcionam como canais de escoamento durante as raras chuvas da região. Em vez de evaporar quase instantaneamente, a água escorre para as camadas profundas do solo.

A umidade retida no subsolo cria um microclima estável e propício para microrganismos que enriquecem a terra. O processo reproduz, em larga escala, o mesmo esforço que agricultores locais fazem manualmente ao cavar pequenas bacias para reter matéria orgânica.

Limites e preservação no Sahel

Os cientistas alertam que o experimento não é uma fórmula aplicável a qualquer cenário de seca extrema. O equilíbrio da região ainda depende de fatores externos, como o manejo do gado e a regularidade climática.

Há também o desafio de proteger os próprios agentes da transformação. A tartaruga-de-esporas-africanas permanece classificada como espécie em risco de extinção, ameaçada pela perda de habitat e pela caça predatória.

Mesmo com esses entraves, o projeto reforça uma lição para as políticas ambientais: investir na reintrodução de uma espécie nativa que evoluiu por milhões de anos no deserto pode ser mais eficiente do que forçar intervenções artificiais de grande porte.

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