Em uma das cidades mais conectadas da América Latina, quem precisa emitir a segunda via do Bilhete Único ainda pode enfrentar uma situação pouco compatível com a realidade dos pagamentos no Brasil: ter de levar dinheiro vivo.
Um levantamento realizado pelo g1 identificou que 30 dos 41 postos da SPTrans em São Paulo não aceitam Pix, cartão de crédito ou débito para a emissão da segunda via do cartão. Apenas 11 unidades passaram a aceitar Pix, ainda em caráter de teste.
A situação chama atenção porque o Pix já está presente em praticamente todos os tipos de serviços e pagamentos do dia a dia. Para o passageiro, porém, a dificuldade aparece justamente quando ele precisa resolver um problema com o cartão de transporte.
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Segunda via do Bilhete Único ainda pode exigir dinheiro vivo
A cobrança para emitir uma nova via do Bilhete Único Comum corresponde a sete tarifas de ônibus. Com a tarifa de R$ 5,30, o valor chega a R$ 37,10.
O problema não está apenas no preço, mas na forma de pagamento. De acordo com a SPTrans, o procedimento presencial para a segunda via do cartão comum ainda prevê pagamento em dinheiro.
A Prefeitura de São Paulo afirma que, quando o sistema foi implantado, em 2004, ainda não havia uma estrutura de pagamento eletrônico que permitisse a operação sem custos adicionais para o poder público.
A administração municipal informou que a expansão do Pix depende da conclusão das avaliações do projeto-piloto e de adequações tecnológicas.
Por enquanto, portanto, quem pretende resolver o problema presencialmente precisa verificar antes se o posto escolhido aceita pagamento digital.
Quantos postos da SPTrans aceitam Pix?
Dos 41 postos analisados pelo levantamento do g1, 11 já aceitavam Pix.
São eles:
- A.E. Carvalho;
- Amaral Gurgel;
- Bandeira;
- Cachoeirinha;
- Dom Pedro II;
- Lapa;
- Pinheiros;
- Pirituba;
- Princesa Isabel;
- Santana;
- Vila Prudente.
Nas demais unidades, segundo o levantamento, o passageiro precisa utilizar dinheiro em espécie para a operação.
A Prefeitura ainda não estabeleceu uma data para que o Pix seja disponibilizado em todos os pontos de atendimento.
Quanto a SPTrans arrecadou com cartões em 2025?
Dados obtidos pelo g1 mostram que a SPTrans arrecadou R$ 26,7 milhões em 2025 com a emissão e substituição de cartões do Bilhete Único.
Como cada operação custa o equivalente a sete tarifas, o valor indica que aproximadamente 760 mil emissões ou substituições foram realizadas durante o ano.
O número ajuda a dimensionar o tamanho da operação. Não se trata, portanto, de um serviço utilizado ocasionalmente por poucos passageiros.
Por que a exigência de dinheiro é criticada?
Para Ciro Biderman, professor da FGV Cidades, a necessidade de utilizar dinheiro vivo revela uma dificuldade tecnológica mais profunda no sistema de transporte paulistano.
Segundo o especialista, a tecnologia utilizada no Bilhete Único, conhecida como Mifare, foi desenvolvida a partir de um modelo de cartão que já tem décadas.
Na avaliação dele, o sistema funciona como uma espécie de “cartão moedeiro”: os créditos ficam armazenados no próprio cartão, em vez de o usuário utilizar uma estrutura semelhante às contas digitais e aos meios modernos de pagamento.
Biderman considera que a tecnologia deveria ter sido atualizada para acompanhar as mudanças ocorridas nos meios de pagamento e na mobilidade urbana.
“É uma vergonha, uma completa vergonha. Quase ninguém tem dinheiro vivo”, afirmou o professor ao g1.
O problema também envolve a logística do dinheiro
A utilização de dinheiro físico em dezenas de postos espalhados pela cidade também levanta uma questão operacional.
Os valores recebidos nos atendimentos precisam ser contabilizados, armazenados e posteriormente encaminhados para depósito bancário. Isso envolve procedimentos de segurança e transporte que não existem da mesma forma em uma transação eletrônica.
A SPTrans informou que os valores arrecadados são depositados na conta da empresa no dia seguinte à apuração e que todas as solicitações são registradas para controle da operação.
Para Biderman, a manutenção desse modelo pode representar custos administrativos que acabam sendo pouco visíveis para o usuário.
Passageiro encontra sistema digital para recarga, mas dinheiro para segunda via
A diferença de tratamento entre os serviços também gera confusão.
O passageiro consegue encontrar opções digitais para recarregar o Bilhete Único e utilizar aplicativos para realizar diferentes operações relacionadas ao transporte.
Quando precisa substituir o cartão, porém, pode descobrir que a solução é bem menos tecnológica.
A especialista em mobilidade urbana Ana Carolina Nunes avalia que essa diferença prejudica a experiência do usuário.
Segundo ela, o passageiro vê a possibilidade de utilizar ferramentas digitais durante a rotina, mas encontra um processo presencial e baseado em dinheiro quando precisa resolver um problema com o cartão.
Turistas e novos moradores podem ser ainda mais prejudicados
A dificuldade também pode atingir pessoas que acabaram de chegar à capital.
Quem não conhece a cidade pode não saber que determinados postos ainda não aceitam pagamentos digitais. Dependendo do serviço solicitado, também pode haver exigência de documentos específicos.
Para estrangeiros e turistas, a situação pode ser ainda mais complicada.
A especialista Ana Carolina Nunes relatou ao g1 o caso de uma estrangeira que precisou lidar com exigências relacionadas ao comprovante de residência para obter o cartão.
Na prática, dificuldades desse tipo podem fazer com que algumas pessoas desistam do Bilhete Único e optem por outras formas de transporte, mesmo quando o ônibus seria mais conveniente.
O que fazer se perder o Bilhete Único?
Quem perdeu, teve o cartão roubado ou sofreu algum tipo de extravio deve primeiro cancelar o Bilhete Único.
O cancelamento pode ser realizado pelos canais de atendimento da SPTrans.
Depois disso, o usuário pode solicitar uma nova via. O saldo existente no cartão antigo não é simplesmente perdido: segundo a SPTrans, após o cancelamento, o valor pode ser disponibilizado para o novo cartão depois de 72 horas.
Por isso, quem perdeu o cartão deve evitar esperar para fazer o cancelamento.
Segunda via é gratuita se o cartão apresentar defeito?
Em determinadas situações, sim.
Quando o cartão apresenta um defeito que não foi causado pelo usuário, a SPTrans pode realizar a substituição sem cobrar a taxa de segunda via, após análise do problema.
Já nos casos de perda, roubo, furto ou extravio, normalmente há cobrança correspondente a sete tarifas.
Bilhete Único de estudante tem pagamento digital
A situação é diferente para o Bilhete Único de Estudante.
Segundo a SPTrans, estudantes podem solicitar a segunda via por meio dos canais digitais e realizar o pagamento utilizando Pix, cartão de crédito ou boleto.
A diferença mostra que o próprio sistema de transporte já possui soluções capazes de trabalhar com pagamentos digitais. A discussão, portanto, está concentrada principalmente na modernização dos procedimentos relacionados ao Bilhete Único Comum.
Onde ficam os postos da SPTrans?
A SPTrans possui dezenas de pontos de atendimento distribuídos pela capital.
Entre eles estão unidades em regiões como:
- Sé;
- Santana;
- Lapa;
- Pinheiros;
- Santo Amaro;
- Jabaquara;
- Campo Limpo;
- Pirituba;
- Vila Prudente;
- Mooca;
- Ipiranga;
- Cidade Tiradentes;
- São Miguel;
- Parelheiros.
Como horários, serviços disponíveis e formas de pagamento podem mudar, o ideal é consultar a unidade antes de sair de casa.
Veja os postos que aceitam Pix
De acordo com o levantamento do g1, os postos que estavam aceitando Pix eram:
A.E. Carvalho: Avenida Imperador, 1.401 – Cidade A. E. Carvalho.
Amaral Gurgel: Rua Dr. Frederico Steidel, 107 – Santa Cecília.
Bandeira: Praça da Bandeira, s/n – Bela Vista.
Cachoeirinha: Avenida Inajar de Souza, 4.120 – Cachoeirinha.
Dom Pedro II: Avenida do Estado, 4.455 – Mooca.
Lapa: Praça Miguel Dell Erba, 50 – Lapa.
Pinheiros: Rua Gilberto Sabino, 130 – Pinheiros.
Pirituba: Avenida Doutor Felipe Pinel, 60 – Pirituba.
Princesa Isabel: Alameda Glete, 433 – Campos Elíseos.
Santana: Rua Olavo Egídio, 274 – Santana.
Vila Prudente: Rua Trocari, s/n – Vila Prudente.
A situação ainda pode mudar conforme a expansão do projeto-piloto. Por isso, antes de comparecer a um dos locais, o passageiro deve conferir as informações atualizadas nos canais oficiais da SPTrans.
Quando todos os postos vão aceitar Pix?

Ainda não há uma data definida.
A Prefeitura de São Paulo informou que a ampliação depende da conclusão do projeto-piloto e das adequações necessárias no sistema.
Até que a mudança seja implementada em toda a rede, o passageiro que precisar da segunda via do Bilhete Único Comum deve considerar a possibilidade de precisar pagar em dinheiro.
A discussão, entretanto, vai além do Pix. Para especialistas, a dificuldade expõe a necessidade de modernizar a própria estrutura de bilhetagem da maior cidade do país.
Enquanto os hábitos de pagamento mudaram rapidamente, parte do sistema continua funcionando com uma lógica criada há mais de duas décadas.
Conclusão
A exigência de dinheiro em espécie para emitir a segunda via do Bilhete Único expõe uma contradição no transporte de São Paulo: enquanto o passageiro já está acostumado a resolver pagamentos pelo celular, parte do atendimento ainda depende de um modelo criado há mais de duas décadas. A Prefeitura afirma que trabalha na expansão do Pix, mas ainda não estabeleceu um prazo para levar a modalidade a todos os postos. Até lá, quem precisar substituir o cartão deve consultar previamente o local de atendimento e a forma de pagamento disponível, evitando uma viagem perdida.
Mais do que uma mudança no meio de pagamento, a discussão coloca em evidência a necessidade de modernizar a experiência de quem depende diariamente do transporte público na maior cidade do país.
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