Quando o assunto é calor no Sistema Solar, a resposta costuma vir automática: Mercúrio. Afinal, ele é o planeta mais próximo do Sol. Mas essa lógica engana.
Apesar da vizinhança imediata com a estrela, Mercúrio não ocupa o posto de planeta mais quente. Esse título pertence a outro velho conhecido: Vênus.
A confusão é comum e tem explicação. Mercúrio orbita o Sol a cerca de 58 milhões de quilômetros, o que corresponde a 0,387 unidade astronômica (UA).
Para comparação, a Terra está a 1 UA do Sol, enquanto Netuno, o mais distante, chega a 30 UAs. Ainda assim, distância não é o único fator que define a temperatura de um planeta.
Temperaturas extremas em Mercúrio
Mercúrio é, na verdade, o planeta das variações extremas. Sem uma atmosfera significativa, ele não consegue reter nem redistribuir o calor recebido do Sol. Como resultado, o lado iluminado pode atingir cerca de 427 °C, enquanto o lado escuro despenca para impressionantes –184 °C.
Outro fator que intensifica esse contraste é a duração do dia mercuriano. Um único dia no planeta equivale a 176 dias terrestres, o que faz com que algumas regiões fiquem expostas ao Sol por semanas seguidas. Ainda assim, isso não é suficiente para tornar Mercúrio o planeta mais quente.
Crateras eternamente na sombra
A superfície de Mercúrio é marcada por crateras profundas, especialmente próximas aos polos. Algumas delas nunca receberam luz solar direta ao longo de bilhões de anos, permanecendo em escuridão constante. Nessas áreas, o frio extremo domina, reforçando o desequilíbrio térmico do planeta.
Além disso, Mercúrio praticamente não tem vento atmosférico. O que existe ali é apenas o vento solar — um fluxo de partículas carregadas vindas do Sol, que interage diretamente com o solo do planeta.
Vênus, o verdadeiro campeão do calor
O planeta mais quente do Sistema Solar é Vênus, mesmo estando mais distante do Sol do que Mercúrio. A explicação está em sua atmosfera extremamente densa, composta majoritariamente por dióxido de carbono. Essa camada funciona como uma estufa eficiente, aprisionando o calor e elevando a temperatura média da superfície para cerca de 482 °C.
Enquanto a Terra já enfrenta os efeitos do aumento de gases de efeito estufa, Vênus leva esse processo ao extremo. A concentração de CO₂ no planeta é milhares de vezes maior do que a terrestre, o que impede que o calor escape para o espaço.
Novas missões e mais respostas
Mercúrio, apesar de não ser o mais quente, segue despertando interesse científico. A missão BepiColombo, fruto de uma parceria entre as agências espaciais da Europa (ESA) e do Japão (JAXA), foi lançada em 2018 e deve entrar em órbita do planeta em dezembro de 2025.
A expectativa é que a missão ajude a compreender melhor o comportamento térmico de Mercúrio e revele detalhes de regiões ainda pouco exploradas, ampliando o conhecimento sobre o planeta mais próximo do Sol — e um dos mais extremos do Sistema Solar.