O investidor que olha apenas para a alta (ou baixa) das bolsas pode estar subestimando os riscos que se acumulam na economia global. Essa é a avaliação de Mohamed El-Erian, um dos economistas mais influentes do mercado, que vê um ambiente marcado por juros elevados, guerras, tensões comerciais e intervenções de governos nos mercados de câmbio e de títulos.
Durante participação no BTG Pactual Macro Day 2026, nesta segunda-feira (31), em São Paulo, El-Erian afirmou que a construção de uma carteira exige mais cautela do que nos últimos anos.
“É preciso ser muito seletivo e preciso [na hora de montar uma carteira de investimentos]”, afirmou o economista, em conversa com André Esteves, chairman e sócio sênior do BTG Pactual.
Para ele, ainda existem oportunidades relevantes no mercado, mas a estratégia de investir de forma ampla em determinados ativos ou regiões ficou mais difícil. O cenário atual exige identificar onde estão os riscos e, principalmente, onde estão as oportunidades que surgem justamente dessas mudanças.
Três níveis de risco
El-Erian divide o cenário econômico global em três níveis.
Na superfície, os dados ainda parecem relativamente positivos. A economia mundial mostrou resiliência diante de sucessivos choques, a inflação está relativamente controlada e não há uma crise financeira em andamento.
Os mercados também continuam apresentando sinais de força: os lucros das empresas estão crescendo, as bolsas permanecem em níveis elevados e a inteligência artificial (IA) representa uma transformação tecnológica concreta.
O problema aparece quando o investidor olha mais profundamente.
Há uma disputa maior por capital ao mesmo tempo em que a oferta se mostra limitada. As moedas passaram a refletir tensões geopolíticas e econômicas, especialmente na relação entre Estados Unidos e China e nas intervenções do Japão.
“Esse é um mundo que não está tão estável como a gente pensa”, disse.
Em um terceiro nível, segundo El-Erian, a visibilidade diminui ainda mais. É difícil prever a velocidade de adoção da IA e, principalmente, como os conflitos geopolíticos vão evoluir.
Para o investidor, isso significa que uma carteira construída a partir de uma única tese pode ficar mais vulnerável a mudanças repentinas.
EUA: dívida de US$ 40 trilhões preocupa
Um dos principais pontos de atenção apontados pelo economista está nos Estados Unidos.
A dívida norte-americana chegou a US$ 40 trilhões, mas, para El-Erian, o número absoluto não é a principal surpresa. O que chama atenção é a velocidade com que o endividamento cresceu: a dívida passou de US$ 20 trilhões para US$ 30 trilhões em menos de uma década.
Esse movimento começa a mudar a percepção do mercado sobre os Treasuries, tradicionalmente tratados como um dos ativos mais seguros do mundo.
Segundo o economista, os títulos do Tesouro americano já não são vistos com a mesma confiança de antes.
Um dos motivos é a mudança na dinâmica de demanda. A China reduziu sua participação como compradora de Treasuries, enquanto o Japão tem vendido títulos americanos quando precisa levantar liquidez para intervir no mercado de câmbio e sustentar o iene.
O resultado é uma combinação incômoda para os EUA: mais oferta de títulos, menor demanda e juros elevados.
El-Erian também criticou a decisão de utilizar intervenções no mercado de títulos para tentar alcançar objetivos econômicos diretamente, em vez de promover uma consolidação fiscal.
A consequência, na visão do economista, será uma perda gradual de influência dos Estados Unidos no sistema financeiro global.
Brasil pode se beneficiar da diversificação
É justamente nesse processo que surge uma oportunidade para mercados emergentes.
Segundo El-Erian, investidores já estão diversificando parte de suas carteiras para fora dos ativos americanos, direcionando recursos para mercados emergentes, ouro e outras alternativas.
O movimento pode beneficiar países como o Brasil, desde que o investidor consiga separar as oportunidades dos riscos específicos de cada mercado.
A mudança também representa uma alteração importante na lógica de construção de portfólio. Durante anos, a concentração em ativos americanos foi favorecida pela combinação de crescimento econômico, força do dólar e percepção de segurança dos Treasuries.
Se essa percepção mudar de maneira estrutural, a diversificação geográfica passa a ter um papel maior.
Japão enfrenta dilema entre juros, câmbio e fiscal
O Japão é outro ponto de preocupação.
El-Erian classificou a política econômica atual do país como um “fracasso coordenado”.
O problema, segundo ele, envolve três frentes.
O Banco do Japão sabe que precisa elevar os juros, mas teme fazer isso de maneira isolada. A equipe econômica reconhece a necessidade de uma consolidação fiscal, mas enfrenta dificuldades para implementá-la. E a primeira-ministra japonesa rejeita medidas de ajuste por causa do custo político.
Enquanto isso, o governo continua intervindo no câmbio para sustentar o iene. Para levantar recursos necessários às intervenções, o Japão vende parte de seus Treasuries, aumentando a oferta dos títulos americanos no mercado.
Na avaliação de El-Erian, o Japão terá de enfrentar o problema em algum momento.
“Eles poderiam resolver o problema do câmbio e dos juros agora, mas estão adiando. Inevitavelmente terão que agir em algum momento”, afirmou.
China tem indústria forte, mas consumidor fraco
A China apresenta outro paradoxo.
De um lado, o país possui uma indústria competitiva, forte setor de tecnologia e uma economia voltada às exportações, capaz de gerar grandes superávits mesmo diante do avanço do protecionismo comercial.
De outro, a demanda doméstica continua fraca.
Na avaliação de El-Erian, esse desequilíbrio cria um problema: a China produz mais do que seu mercado interno consegue absorver, aumentando a dependência das exportações justamente em um momento de maior resistência comercial no exterior.
O economista considera que a China alcançou uma posição de enorme importância na economia mundial, mas ainda toma decisões com uma visão excessivamente doméstica.