Pular para o conteúdo
Trends

Matemática acende alerta no Pisa: 72% dos alunos brasileiros não chegam ao nível básico

Sete em cada dez estudantes brasileiros de 15 anos ainda têm dificuldade para utilizar conhecimentos matemáticos considerados básicos em situações do cotidiano. O retrato aparece nos resultados do Pisa 2025, divulgados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em 8…

Matemática acende alerta no Pisa: 72% dos alunos brasileiros não chegam ao nível básico

Sete em cada dez estudantes brasileiros de 15 anos ainda têm dificuldade para utilizar conhecimentos matemáticos considerados básicos em situações do cotidiano. O retrato aparece nos resultados do Pisa 2025, divulgados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em 8 de setembro de 2026.

No Brasil, 72% dos estudantes ficaram abaixo do nível 2 de proficiência em matemática, patamar que a avaliação utiliza como referência mínima. Apenas 28% atingiram o nível 2 ou superior. Na média dos países da OCDE, essa proporção foi de 65%, o que significa que 35% ficaram abaixo do nível básico.

O resultado brasileiro praticamente não mudou em relação ao Pisa 2022. Esse é justamente um dos principais pontos de atenção: o país não sofreu uma nova queda expressiva, mas também não consegue produzir uma melhora consistente há aproximadamente uma década.

O cenário internacional também preocupa. Matemática e leitura chegaram às menores médias já registradas pelo Pisa nos países da OCDE, mostrando que a perda de aprendizagem não é um problema exclusivo do Brasil.

Leia mais:

Pagar o IPVA à vista vale a pena? Compare com o parcelamento

O que significa 72% dos alunos abaixo do nível básico em matemática?

Imagem: Edição/ Seu Crédito Digital

O número chama atenção, mas é importante entender exatamente o que o Pisa está medindo.

A avaliação não busca apenas saber se o estudante consegue decorar uma fórmula ou realizar uma conta. O objetivo é verificar se ele consegue utilizar conhecimentos matemáticos para resolver problemas que podem aparecer fora da sala de aula.

Segundo a OCDE, um estudante que alcança pelo menos o nível 2 de matemática consegue reconhecer como uma situação relativamente simples pode ser representada matematicamente, mesmo sem receber instruções diretas sobre o caminho a seguir.

Isso inclui, por exemplo, comparar a distância total de duas rotas diferentes ou converter preços de uma moeda para outra.

Quando 72% dos estudantes brasileiros ficam abaixo desse nível, portanto, o resultado não significa simplesmente que eles “não sabem matemática”.

Significa que uma parcela muito grande dos jovens ainda não demonstra de maneira consistente as habilidades mínimas que o Pisa considera necessárias para aplicar a matemática em situações práticas.

Apenas 28% alcançaram o patamar mínimo

O dado pode ser observado pelo caminho inverso.

Somente 28% dos estudantes brasileiros chegaram ao nível 2 ou superior em matemática, enquanto a média da OCDE foi de 65%.

A diferença mostra que o Brasil continua distante do desempenho médio das economias mais desenvolvidas.

Nos níveis mais elevados, a distância também aparece. Segundo a OCDE, praticamente nenhum estudante brasileiro alcançou os níveis 5 ou 6 de matemática, enquanto a média entre os países da organização foi de 8%.

Esses níveis mais altos envolvem capacidades como modelar situações complexas, comparar diferentes estratégias e escolher métodos adequados para solucionar problemas.

Qual foi a nota do Brasil no Pisa 2025?

O Brasil obteve 377 pontos em matemática, 408 pontos em leitura e 409 pontos em ciências, de acordo com o Inep, responsável pela aplicação do Pisa no país.

Em todas as três áreas, o desempenho ficou abaixo da média dos países da OCDE.

O resultado brasileiro foi:

  • matemática: 377 pontos;
  • leitura: 408 pontos;
  • ciências: 409 pontos.

O Pisa não deve ser interpretado como uma prova escolar tradicional em que existe simplesmente uma nota de aprovação.

As pontuações permitem comparar os sistemas educacionais e identificar quais habilidades os estudantes conseguem demonstrar em diferentes níveis de complexidade.

Por isso, além da média de pontos, a distribuição dos alunos entre os níveis de proficiência é fundamental para compreender a situação.

O problema vai além da matemática

Embora os 72% abaixo do básico em matemática sejam o dado de maior impacto, as dificuldades brasileiras aparecem também em leitura e ciências.

Em leitura, 49% dos estudantes brasileiros atingiram pelo menos o nível 2, contra 69% na média da OCDE.

Isso significa que aproximadamente 51% ficaram abaixo do patamar mínimo estabelecido pela avaliação.

No nível 2, o estudante já consegue, entre outras tarefas, identificar a ideia principal de um texto de extensão moderada, localizar informações a partir de critérios definidos e refletir sobre o objetivo de um texto quando recebe alguma orientação.

Em ciências, 48% dos brasileiros atingiram o nível 2 ou superior, contra 74% na média da OCDE.

Nesse patamar, os estudantes conseguem reconhecer explicações corretas para fenômenos científicos conhecidos e utilizar dados simples para avaliar se determinada conclusão é válida.

O quadro mostra que a dificuldade não está concentrada em uma única disciplina.

Há um desafio mais amplo relacionado ao domínio de competências fundamentais que acompanham o aluno durante a vida escolar e depois chegam ao ensino superior, à formação profissional e ao mercado de trabalho.

Por que leitura ruim também prejudica matemática?

Matemática e leitura parecem disciplinas muito diferentes, mas uma depende cada vez mais da outra.

Boa parte das questões modernas de matemática não apresenta apenas números e operações. O aluno precisa primeiro interpretar uma situação, identificar quais informações são relevantes e só então escolher como resolver o problema.

Por isso, uma dificuldade de leitura pode se transformar também em dificuldade matemática.

A própria OCDE chama atenção para o enfraquecimento da leitura em diferentes países. Entre 2015 e 2025, a média dos integrantes da organização caiu 28 pontos em leitura, desempenho equivalente a aproximadamente um ano e meio de aprendizagem.

Em matemática, a redução foi de 22 pontos, equivalente a pouco mais de um ano de aprendizagem.

Isso ajuda a explicar por que o debate sobre alfabetização e compreensão de textos não deve ficar restrito às aulas de Língua Portuguesa.

Aprender a interpretar informações é uma habilidade necessária em praticamente todas as áreas.

Brasil ficou estagnado ou melhorou? Os dois dados podem ser verdadeiros

Os resultados do Pisa 2025 podem provocar uma aparente contradição.

A OCDE afirma que o desempenho brasileiro está praticamente estável desde 2015. Ao mesmo tempo, o Inep destaca que o Brasil está entre os países que mais avançaram quando a comparação considera aproximadamente duas décadas.

As duas afirmações podem ser verdadeiras porque utilizam períodos diferentes.

Desde 2015, quase não houve avanço

Quando são comparadas as edições mais recentes, a situação brasileira é de estabilidade.

Segundo a OCDE, os resultados de 2025 ficaram próximos aos de 2022 nas três disciplinas.

A estabilidade se estende por mais de uma década: as pontuações atuais estão próximas das observadas nas avaliações realizadas desde 2015.

Além disso, desde 2015, a proporção de estudantes abaixo do nível 2 não apresentou mudança estatisticamente significativa em matemática nem em leitura.

Em ciências houve melhora: a parcela de alunos abaixo do nível mínimo caiu quatro pontos percentuais no período.

No longo prazo, o Brasil avançou

Quando o ponto de partida muda para 2006, o cenário é diferente.

Segundo o Inep, o Brasil aparece entre as dez nações que mais avançaram em proficiência desde aquele ano entre os países analisados.

O país ficou na sétima posição em avanço de leitura e matemática e na oitava posição em ciências.

Isso mostra que houve progresso em uma perspectiva mais longa.

O problema é que essa melhora perdeu velocidade.

Em outras palavras, o Brasil conseguiu avançar em relação ao cenário de duas décadas atrás, mas encontra dificuldades para continuar elevando o desempenho nos últimos anos.

O problema mundial ficou ainda mais evidente no Pisa 2025

O Brasil não está sozinho na dificuldade.

O Pisa 2025 registrou as menores médias da história da avaliação nos países da OCDE em matemática e leitura.

Entre 2015 e 2025, a pontuação média em matemática caiu 22 pontos. Em leitura, a queda chegou a 28 pontos.

Além disso, um em cada cinco estudantes de 15 anos nos países da OCDE apresenta baixo desempenho simultaneamente em matemática, leitura e ciências.

Em 2022, essa proporção era de 16%.

Ciências apresentou uma situação menos negativa no intervalo mais recente. A média permaneceu praticamente estável entre 2022 e 2025, embora exista uma tendência de redução quando observado um período maior.

Esses números reforçam que muitos sistemas educacionais ainda enfrentam dificuldades ligadas à aprendizagem acumuladas antes, durante e depois da pandemia.

A OCDE ressalta, inclusive, que parte da deterioração já havia começado antes da Covid-19, o que impede atribuir toda a queda exclusivamente ao fechamento das escolas.

Quantos estudantes participaram do Pisa 2025?

Esta foi a maior edição do Pisa já realizada.

Mais de 760 mil estudantes de 91 países e economias participaram da avaliação, representando aproximadamente 33 milhões de jovens de 15 anos.

No Brasil, foram avaliados 30.140 estudantes de 1.053 escolas, representando cerca de 2,185 milhões de jovens dessa idade matriculados no sistema educacional.

Entre os participantes brasileiros:

  • 72,4% estudavam em escolas estaduais;
  • 96,9% frequentavam escolas de áreas urbanas;
  • 78,1% estudavam em escolas localizadas no interior;
  • 84,7% estavam na 1ª ou na 2ª série do ensino médio.

As provas foram aplicadas entre abril e maio de 2025.

Como funciona o Pisa?

O Programa Internacional de Avaliação de Estudantes é coordenado pela OCDE e existe desde 2000. O Brasil participa desde a primeira edição.

O exame avalia principalmente jovens de 15 anos porque essa idade corresponde aproximadamente ao fim da escolaridade obrigatória em vários países.

O objetivo não é verificar se todos aprenderam exatamente o mesmo conteúdo escolar.

Em vez disso, o Pisa procura medir se os estudantes conseguem usar o conhecimento adquirido para enfrentar situações reais.

Em matemática, por exemplo, a avaliação mede a capacidade de raciocinar, formular problemas, empregar métodos matemáticos e interpretar resultados.

Em leitura, observa se o jovem consegue compreender, utilizar, avaliar e refletir sobre textos.

Em ciências, verifica a capacidade de utilizar conhecimentos científicos para analisar fenômenos, evidências e decisões.

Ciências foi o foco principal em 2025

Cada edição do Pisa escolhe uma das três áreas tradicionais para uma avaliação mais aprofundada.

Em 2025, o foco foi ciências.

Matemática e leitura continuaram sendo avaliadas, mas como áreas secundárias.

Também foi incluída uma nova avaliação relacionada à Aprendizagem no Mundo Digital, com análise de resolução de problemas utilizando ferramentas computacionais e aprendizagem autorregulada.

Como o Brasil se saiu na aprendizagem digital?

O Pisa 2025 trouxe uma novidade importante ao avaliar como os estudantes utilizam ferramentas computacionais para resolver problemas.

Na chamada Resolução de Problemas por meio de Ferramentas Computacionais, a média de referência dos países da OCDE foi estabelecida em 500 pontos.

O Brasil obteve 406 pontos.

O resultado mostra que o desafio educacional brasileiro não se limita às disciplinas tradicionais.

À medida que inteligência artificial, programação, pesquisa digital e ferramentas tecnológicas passam a ocupar espaço crescente no trabalho e na educação, saber utilizar tecnologia para raciocinar e resolver problemas torna-se uma competência cada vez mais importante.

Celular e inteligência artificial também entraram no retrato

Os questionários aplicados pelo Pisa fornecem informações que ajudam a compreender o ambiente de aprendizagem.

No Brasil, 81% dos estudantes disseram frequentar escolas em que havia restrições ao uso de celulares em 2025. Na média da OCDE, eram 49%.

Ao mesmo tempo, 25% dos estudantes brasileiros disseram que colegas se distraíam com dispositivos digitais durante a maioria ou todas as aulas de ciências.

Segundo a OCDE, no Brasil os alunos inseridos em salas onde havia distração digital tiveram desempenho em ciências 19 pontos menor do que aqueles que não relataram esse problema, após considerar diferenças socioeconômicas.

A inteligência artificial também já está presente na rotina escolar.

Quase metade dos estudantes brasileiros — 48% — afirmou utilizar chatbots de IA para ajudar a aprender pelo menos uma vez por semana.

A OCDE destaca que tecnologia e IA podem contribuir para a educação, mas precisam ser utilizadas com objetivos definidos e sem substituir esforço, atenção e compreensão.

O que o resultado do Pisa significa para o futuro do Brasil?

O maior problema revelado pelo Pisa 2025 talvez não seja uma queda repentina, mas a dificuldade de avançar.

Um estudante com pouca capacidade de interpretação matemática pode encontrar dificuldades para compreender juros, descontos, orçamento doméstico, comparação de preços, gráficos e informações financeiras.

A mesma deficiência acompanha outras etapas da vida.

No mercado de trabalho, funções cada vez mais exigem interpretação de dados, resolução de problemas e domínio de ferramentas digitais.

Na educação, dificuldades acumuladas no ensino básico também podem comprometer o desempenho no ensino médio, na universidade ou em cursos técnicos.

Por isso, os 72% abaixo do nível básico de matemática não representam apenas um indicador escolar.

O dado aponta para um problema que pode afetar produtividade, qualificação profissional, renda e capacidade de adaptação a novas tecnologias no longo prazo.

O que pode ajudar a mudar esse cenário?

Não existe uma medida isolada capaz de resolver um problema construído durante anos de escolarização.

A própria OCDE aponta que sistemas de alto desempenho costumam combinar diferentes ações, como investimento e apoio aos professores, participação das famílias e atendimento direcionado aos estudantes e escolas com maiores dificuldades.

No caso brasileiro, o Pisa ajuda a indicar onde estão os principais gargalos.

Recuperar aprendizagens básicas precisa ser uma prioridade, especialmente porque conteúdos mais avançados dependem daquilo que deveria ter sido consolidado anteriormente.

Um estudante que chega ao ensino médio com dificuldade para interpretar textos, trabalhar com proporções ou compreender gráficos terá mais dificuldade para avançar, mesmo que o currículo continue apresentando conteúdos novos.

Por isso, diagnosticar lacunas e oferecer recuperação ao longo da trajetória escolar pode ser tão importante quanto cumprir o conteúdo previsto para cada série.

Pisa 2025 deixa um alerta difícil de ignorar

O Brasil não despencou no Pisa 2025. Esse é justamente o ponto mais complexo do resultado.

O país permaneceu praticamente no mesmo lugar.

Há avanços quando se observa um período de aproximadamente duas décadas, mas desde 2015 os resultados permanecem próximos nas três principais áreas avaliadas.

Enquanto isso, 72% dos estudantes brasileiros continuam abaixo do nível básico em matemática, 51% estão abaixo desse patamar em leitura e 52% em ciências.

O desafio agora não é apenas impedir novas perdas.

É conseguir transformar estabilidade em avanço real, garantindo que uma parcela maior dos jovens chegue ao fim da educação básica capaz de compreender textos, raciocinar matematicamente, interpretar evidências e utilizar tecnologia de maneira produtiva.

Essas habilidades ultrapassam a sala de aula. São instrumentos necessários para estudar, trabalhar, administrar dinheiro, tomar decisões e participar plenamente da sociedade.

Perguntas frequentes sobre o Pisa 2025

Matemática
Imagem: creativeart / Freepik

Quantos estudantes brasileiros ficaram abaixo do nível básico em matemática?

Segundo a OCDE, 72% dos estudantes brasileiros avaliados ficaram abaixo do nível 2 de proficiência em matemática. Apenas 28% atingiram o nível 2 ou superior.

Qual foi a nota do Brasil no Pisa 2025?

O Brasil obteve 377 pontos em matemática, 408 em leitura e 409 em ciências.

O que significa nível 2 no Pisa?

O nível 2 é utilizado como referência de proficiência básica. Em matemática, por exemplo, o estudante nesse nível consegue reconhecer como situações simples podem ser representadas matematicamente e resolver problemas cotidianos de baixa complexidade.

O Brasil melhorou no Pisa 2025?

Na comparação com 2022, os resultados ficaram praticamente estáveis em matemática, leitura e ciências. Quando comparado com 2006, porém, o Brasil registra avanço no longo prazo.

Quantos alunos fizeram o Pisa 2025 no Brasil?

Participaram 30.140 estudantes brasileiros de 1.053 escolas.

Qual país teve o melhor desempenho no Pisa 2025?

B-S-J-Z, conjunto formado por regiões chinesas participantes da avaliação, e Singapura estiveram entre os sistemas de maior desempenho. Estônia, Japão, Coreia, Macau, Taipé Chinês e Reino Unido também apareceram entre os dez melhores nas três áreas principais.

Para que serve o Pisa?

O Pisa permite comparar o desempenho de estudantes de 15 anos de diferentes países e avaliar até que ponto conseguem aplicar conhecimentos de matemática, leitura e ciências a problemas e situações reais.

Quando será o próximo Pisa?

A partir da edição de 2025, o ciclo passou a ser realizado a cada quatro anos. Segundo o Inep, a próxima edição está prevista para 2029.


Conteúdo publicado originalmente em Seu Crédito Digital. Reprodução parcial ou total proibida sem autorização expressa.