O sucesso de Ainda Estou Aqui, filme brasileiro vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025, ajudou a levar para o centro das discussões um tema que ainda desperta dúvidas: pessoas intelectualmente ativas, com alta escolaridade e uma vida marcada pelo estudo também podem desenvolver Alzheimer?
A produção retrata a trajetória de Eunice Paiva, advogada e ativista que dedicou décadas à busca por respostas sobre o desaparecimento e a morte do marido, o ex-deputado Rubens Paiva, durante a ditadura militar. Nos anos finais da vida, Eunice conviveu com o Alzheimer, uma doença neurodegenerativa que afeta a memória, a linguagem e outras funções cognitivas.
O caso chamou a atenção justamente porque Eunice manteve uma intensa atividade intelectual ao longo da vida. Especialistas explicam, porém, que hábitos como estudar, ler e exercitar o cérebro podem ajudar a retardar o aparecimento dos sintomas, mas não oferecem proteção total contra a doença.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Alzheimer é a forma mais comum de demência e responde por cerca de 60% a 70% dos casos registrados no mundo.
A história de Eunice Paiva e os limites da chamada reserva cognitiva
Em Ainda Estou Aqui, Eunice é interpretada por Fernanda Torres e, nas fases mais avançadas da doença, por Fernanda Montenegro. A obra acompanha não apenas sua luta política e familiar, mas também as transformações provocadas pelo Alzheimer ao longo dos anos.
Eunice recebeu o diagnóstico aos 75 anos e viveu até os 89. Embora a expectativa de vida após a descoberta da doença varie bastante, pesquisadores observam que algumas pessoas conseguem manter a autonomia por mais tempo graças ao que a ciência chama de “reserva cognitiva”.
O conceito descreve a capacidade do cérebro de compensar parte das alterações causadas pelo envelhecimento e pelas demências. Em geral, fatores como escolaridade, trabalho intelectual, leitura frequente e interação social contribuem para fortalecer essa reserva.
No entanto, especialistas ressaltam que ela não impede o desenvolvimento do Alzheimer. Em muitos casos, as alterações cerebrais começam anos antes dos primeiros sintomas se tornarem perceptíveis.
Estudos apontam que hábitos saudáveis reduzem riscos, mas não eliminam a possibilidade da doença
Um dos levantamentos mais importantes sobre o tema foi publicado pela Lancet Commission on Dementia Prevention, Intervention and Care, grupo internacional que reúne especialistas em neurologia, geriatria e saúde pública.
No relatório mais recente, divulgado em 2024, os pesquisadores concluíram que até 45% dos casos de demência podem estar associados a fatores de risco modificáveis ao longo da vida, como baixa escolaridade, sedentarismo, hipertensão, obesidade, diabetes, depressão, perda auditiva e isolamento social.
Isso significa que hábitos saudáveis podem diminuir as chances de desenvolver a doença ou retardar seu aparecimento, mas não garantem proteção absoluta.
A Organização Mundial da Saúde também destaca que o Alzheimer é uma condição multifatorial, influenciada por uma combinação de fatores genéticos, ambientais e clínicos.
Genética e doenças crônicas também entram na equação
Ter familiares diagnosticados com Alzheimer pode aumentar o risco de desenvolver a doença, mas isso não significa que o quadro seja inevitável. Da mesma forma, pessoas sem qualquer histórico familiar também podem receber o diagnóstico.
Além da predisposição genética, estudos apontam a influência de condições cardiovasculares e metabólicas, como hipertensão, colesterol elevado e diabetes.
A OMS ainda cita outros fatores associados ao declínio cognitivo, incluindo tabagismo, consumo excessivo de álcool, perda auditiva não tratada e exposição prolongada à poluição do ar.
Pesquisadores acreditam que esses elementos podem acelerar processos inflamatórios e alterações cerebrais relacionadas às demências.
Exercícios, alimentação e vida social estão entre as recomendações
Embora ainda não exista uma forma comprovada de prevenir completamente o Alzheimer, organizações de saúde defendem a adoção de hábitos que favoreçam o envelhecimento saudável.
Nas diretrizes publicadas pela OMS para a redução do risco de declínio cognitivo, algumas medidas aparecem com frequência:
- Praticar atividades físicas regularmente;
- Manter uma alimentação equilibrada;
- Controlar a pressão arterial, o colesterol e a glicemia;
- Evitar o cigarro e o consumo excessivo de álcool;
- Preservar uma vida social ativa;
- Estimular o cérebro por meio da leitura e do aprendizado contínuo;
- Tratar problemas auditivos;
- Manter o peso adequado.
Segundo os especialistas, essas estratégias ajudam a preservar a saúde do cérebro e podem retardar o surgimento dos sintomas, mas não eliminam completamente a possibilidade de desenvolvimento da doença.
Pesquisas seguem em busca de respostas sobre o Alzheimer
Apesar dos avanços científicos das últimas décadas, ainda não existe cura para o Alzheimer. Os tratamentos disponíveis atualmente buscam desacelerar a progressão dos sintomas e ampliar a qualidade de vida dos pacientes.
Com o envelhecimento da população mundial, pesquisadores têm intensificado os estudos sobre as causas da doença e sobre novas formas de tratamento e prevenção.
Casos como o de Eunice Paiva ajudam a ilustrar justamente um dos principais desafios enfrentados pela ciência: compreender por que pessoas com trajetórias intelectuais semelhantes podem ter experiências tão diferentes diante do Alzheimer.
