A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada mensalmente pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), revelou um panorama complexo sobre a situação financeira das famílias brasileiras em outubro de 2024. Enquanto o percentual de famílias endividadas recuou levemente, o índice de inadimplência avançou, destacando dificuldades crescentes em meio à conjuntura de juros elevados e crédito restritivo.
A Situação das Famílias de Baixa Renda
Entre as famílias com menor poder aquisitivo, a taxa de inadimplência alcançou impressionantes 37,7%, evidenciando o impacto significativo dos custos elevados de crédito sobre os lares mais vulneráveis. De acordo com o economista-chefe da CNC, Felipe Tavares, “o aumento da inadimplência, apesar da redução no endividamento, evidencia as dificuldades enfrentadas para manter as contas em dia”. Ele enfatizou que a alta taxa Selic restringe o acesso ao crédito e dificulta a recuperação financeira, sobretudo para os mais pobres.
Essa análise sugere que, mesmo com a cautela no uso do crédito, as famílias de menor renda enfrentam dificuldades para honrar compromissos financeiros em um cenário onde as taxas de juros permanecem em patamares elevados.
Endividamento em Declínio, mas Inadimplência em Alta
O relatório da CNC mostrou que o endividamento geral recuou para 76,9%, um nível comparável ao registrado em outubro do ano anterior. Este recuo sinaliza uma atitude mais cuidadosa das famílias ao assumir novas dívidas. No entanto, o índice de inadimplência subiu para 29,3%, a maior taxa desde outubro de 2023, o que sugere que, embora menos famílias estejam contratando dívidas, muitas ainda enfrentam desafios para pagar as já existentes.
Desigualdade na Redução de Dívidas
As famílias com renda superior a 10 salários mínimos conseguiram diminuir seu nível de endividamento, atingindo 67,1%, e também registraram índices relativamente baixos de inadimplência (14,3%). Esse contraste evidencia uma maior resiliência financeira entre os mais abastados, que tendem a ter mais alternativas para lidar com despesas e evitar o acúmulo de dívidas.
Por outro lado, o endividamento entre as famílias de menor renda subiu de 78,7% em outubro de 2023 para 80,8% em outubro de 2024. Este aumento, aliado à alta taxa de inadimplência, ressalta a fragilidade das finanças pessoais nesse grupo e a dificuldade de sair do ciclo de dívida.
O Papel do Crédito e a Busca por Alternativas
O cartão de crédito permanece a principal modalidade de endividamento, sendo utilizado por 83,5% das famílias em outubro. Embora esse percentual tenha diminuído em relação aos 87% de outubro de 2023, ele ainda demonstra a dependência significativa dessa forma de crédito. Com os juros elevados, alternativas como crédito pessoal, que registrou um aumento de uso para 12% em outubro de 2024, tornam-se mais atrativas por suas taxas mais competitivas.
O uso do cheque especial, no entanto, teve uma queda, alcançando apenas 3,6%, o menor índice do ano. Isso sugere que as famílias estão buscando formas de crédito que, embora ainda caras, oferecem melhores condições do que o cheque especial.
Medidas e Perspectivas para Alívio Econômico
José Roberto Tadros, presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, destacou que uma das soluções passa pela redução de gastos públicos para criar espaço para uma queda na taxa de juros. “Medidas que favoreçam a diminuição dos juros trariam alívio para os consumidores e poderiam melhorar a saúde financeira da economia como um todo”, acrescentou.
Com as projeções da CNC indicando um possível aumento do endividamento impulsionado pelas compras de fim de ano, é crucial que as famílias busquem estratégias de planejamento financeiro e que o governo considere políticas que incentivem o consumo de forma sustentável, sem agravar a situação dos consumidores.
O cenário atual ressalta a necessidade de um equilíbrio entre políticas econômicas e medidas que permitam às famílias um acesso mais seguro ao crédito. O fim de 2024 trará desafios adicionais com as festividades, e tanto consumidores quanto gestores econômicos devem estar atentos para evitar um novo pico de inadimplência que possa impactar ainda mais a economia.
