Gelo da Antártida pode ser a chave para encontrar vida em outros planetas

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Em meio a um dos ambientes mais extremos da Terra, cientistas enxergam pistas que podem ajudar a responder uma das maiores perguntas da humanidade: estamos sozinhos no Universo?

Regiões cobertas por gelo permanente, com pouca luz e temperaturas muito baixas, podem parecer inóspitas. Ainda assim, esses locais escondem características semelhantes às encontradas em corpos celestes distantes. É justamente nessa semelhança que mora o interesse dos pesquisadores.

Água da Antártida ajuda a simular oceanos alienígenas

Pesquisadores ligados à Nasa estão utilizando amostras de água coletadas na Península Antártica para entender como seria procurar vida em mundos cobertos por gelo no Sistema Solar.

A ideia é estudar ambientes que se aproximem das condições de luas como Europa, de Júpiter, e Encélado, de Saturno, além do planeta anão Plutão. Esses corpos são conhecidos como mundos oceânicos, pois acredita se que possuam vastos oceanos de água líquida escondidos sob camadas espessas de gelo.

Esses oceanos subterrâneos podem conter elementos considerados essenciais para a vida, como:

• Carbono
• Nitrogênio
• Fontes de energia química

A presença desses ingredientes levanta a possibilidade de existirem microrganismos vivendo nesses ambientes escuros e isolados da luz solar.

Em Encélado, por exemplo, há indícios de que água subterrânea pode ser lançada ao espaço por meio de um processo chamado criovulcanismo. Esse fenômeno cria jatos que atravessam o gelo e liberam material oceânico para fora da lua, permitindo que sondas espaciais coletem amostras sem precisar perfurar quilômetros de gelo.

Simulações mostram como sinais de vida podem mudar

Embora o criovulcanismo facilite a coleta de material, ele também pode alterar possíveis sinais biológicos. Quando a água líquida entra em contato com o vácuo do espaço, ela congela ou evapora rapidamente. Nesse processo, moléculas orgânicas como aminoácidos podem ser modificadas ou até perdidas.

Para entender essas transformações, pesquisadores desenvolveram um equipamento chamado Simulador de Criovulcanismo do Mundo Oceânico. O aparelho injeta água líquida em uma câmara de vácuo que reproduz as condições do espaço.

Desde 2022, os cientistas realizam testes com soluções preparadas em laboratório contendo sais e compostos orgânicos. O passo seguinte foi estudar amostras naturais, já que na natureza as interações entre minerais, partículas e moléculas são mais complexas do que em misturas artificiais.

Foi nesse contexto que surgiu a expedição à Antártida. Em meados de 2024, uma equipe embarcou em um navio quebra gelo equipado para pesquisa científica. A operação envolveu cerca de 50 pessoas, responsáveis por logística, segurança e transporte das amostras congeladas.

Durante a missão, os pesquisadores coletaram:

• Água presa dentro do gelo marinho
• Água que circulava pelos poros do gelo
• Amostras em grandes profundidades, incluindo 1.120 metros na Corrente Circumpolar

No Mar de Weddell, coberto por cerca de 15 metros de gelo, a coleta exigiu coordenação precisa com a tripulação do navio, já que blocos de gelo pressionavam constantemente a abertura usada para baixar os equipamentos.

De volta ao laboratório, as amostras são descongeladas e divididas em duas partes. Uma é analisada diretamente. A outra passa pelo simulador que reproduz a erupção no espaço. Técnicas de cromatografia são usadas para identificar mudanças em sais, aminoácidos e ácidos graxos.

Ao comparar o material antes e depois da simulação, os pesquisadores conseguem avaliar como possíveis sinais de vida seriam alterados ao deixar um oceano subterrâneo e alcançar o espaço.

O gelo da Antártida, portanto, funciona como um modelo natural para estudar ambientes parecidos com os de outros mundos. Ao compreender como a química se comporta nessas condições extremas, a Nasa avança na preparação de futuras missões que podem, um dia, detectar indícios de vida além da Terra.

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