A estimulação elétrica da medula, associada à reabilitação intensiva, pode ajudar algumas pessoas com lesão medular crônica a recuperar movimentos. A técnica, porém, ainda não é um protocolo rotineiro nem uma cura, e os resultados não permitem garantir a recuperação da marcha. As informações são do neurocirurgião Guilherme Alves Lepski.
No Brasil, estima-se que ocorram de 6 mil a 8 mil novos casos de lesão medular traumática por ano. Acidentes de trânsito, quedas, tiros e mergulhos estão entre as causas.
Na estimulação epidural, eletrodos implantados acima da dura-máter enviam impulsos à medula. Segundo Lepski, esses estímulos podem tornar circuitos nervosos abaixo da lesão mais responsivos à intenção de movimento e ao treinamento. Redes que coordenam músculos e reflexos podem permanecer mesmo quando não há movimento voluntário.
Uma revisão sistemática citada pelo neurocirurgião encontrou resultados encorajadores sobretudo em lesões torácicas, que afetam principalmente as pernas. Há relatos de movimentos voluntários, de permanência em pé e de passos com apoio. Nas lesões cervicais, os dados são mais limitados e incertos.
Em estudo clínico de fase II realizado no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, 10 pacientes com paraplegia grave por lesão torácica crônica receberam o estimulador e fizeram treinamento físico. Em 12 meses, a pontuação média na avaliação motora dos membros inferiores passou de 36 para 64 pontos.
Todos apresentaram algum movimento voluntário com o aparelho desligado, observado entre o quarto e o oitavo mês. Dois pacientes adaptados a órteses têm conseguido andar com andador; outros seis ainda estão em adaptação.
Estudos pré-clínicos com ratos observaram mais células nervosas sobreviventes e conexões entre neurônios, mas não encontraram evidência de crescimento de novas fibras nervosas. Lepski ressalta que a resposta varia conforme características da lesão e que o método precisa ser avaliado em estudos maiores. A estimulação deve ser acompanhada de neuroreabilitação intensiva, diária e supervisionada.

