A tentativa de Flávio Bolsonaro de se apresentar como perseguido político tem diferenças importantes em relação à trajetória de Juan Guaidó, avalia a pesquisadora Marsílea Gombata, professora de relações internacionais da FAAP e pesquisadora da USP. Em carta divulgada na quarta-feira (28), o senador comparou sua situação à de figuras políticas de outros países.
Flávio deixou o Brasil após ser derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na eleição presidencial e foi para os Estados Unidos, onde recebeu autorização de entrada. Ele não reconhece o resultado, embora seu partido, o PL, tenha reconhecido a derrota. Órgãos de fiscalização eleitoral e a Organização dos Estados Americanos (OEA) consideraram a eleição brasileira democrática.
Guaidó, ex-presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, se autoproclamou presidente interino em 2019, depois de contestar a legitimidade do novo mandato de Nicolás Maduro. Naquele período, governos e organizações internacionais questionaram o processo eleitoral venezuelano, apontando falta de condições para uma disputa livre e justa.
Guaidó recebeu reconhecimento dos Estados Unidos e de governos europeus e sul-americanos; permaneceu na Venezuela nos primeiros anos da crise e foi para os Estados Unidos em 2023.
Para Gombata, a retenção dos passaportes de Flávio determinada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) acabou dando força à narrativa de perseguição. A pesquisadora avaliou que a medida foi desnecessária e alimentou essa versão. Não houve reconhecimento internacional de uma reivindicação de vitória de Flávio, diferentemente do que ocorreu com Guaidó.
O senador é alvo de dois inquéritos no STF. Um apura suspeitas de irregularidades no financiamento do filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro. Segundo a investigação, Flávio pediu R$ 134 milhões para o projeto e recebeu cerca de R$ 60 milhões; ele afirma que os recursos são privados. O outro inquérito investiga suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo o senador e o advogado Willer Tomaz.
Na carta, Flávio também citou Rui Barbosa, José Martí e María Corina Machado. A pesquisadora aponta diferenças entre a situação da opositora venezuelana e a do senador, mas o trecho disponível da avaliação não detalha esse ponto.

