Escritoras do Cariri cearense exploram diferentes gêneros literários para colocar no centro de suas obras histórias e personagens que, muitas vezes, não têm espaço nas narrativas. As trajetórias de Dia Bárbara Nobre, Zulmira Correia e Aline Bussons foram destacadas no Dia Nacional do Livro, celebrado nesta quinta-feira (29), em homenagem à fundação da Biblioteca Nacional, em 1810.
Historiadora nascida em Juazeiro do Norte, Dia Bárbara Nobre pesquisou documentos da historiografia cearense e encontrou Maria de Araújo, figura central do Cariri com pouca presença nos livros. A pesquisa deu origem a “Incêndios da Alma”, obra que se tornou referência para estudiosos do catolicismo popular na região.
Em 2025, a autora publicou seu primeiro romance, “Boca do Mundo”, sobre mulheres que sofrem violência doméstica e a força de sua união. Nobre afirma que a ficção lhe permitiu imaginar as vozes dessas personagens e retratar um sertão inspirado em suas experiências no Ceará e em Pernambuco, onde morou por nove anos.
Memória e infância
Zulmira Correia prepara o lançamento de “Água-ventre”, previsto para novembro. O livro reúne personagens femininas inspiradas em pessoas que atravessaram a vida da escritora, nascida na zona rural do Crato. A obra surgiu de uma exposição com arquivos sonoros, fotográficos e textuais sobre memória matriarcal e território, tendo como referência as águas da Chapada do Araripe. Segundo Correia, o título combina narrativas sobre água e nascimento; o livro mescla poesia e outros gêneros.
Na literatura infantil, Aline Bussons usa animais como protagonistas para abordar temas como respeito, diferenças e autonomia. Em “Uma baleia muito esperta”, a personagem Roberta é curiosa; “O Hipopótamo que tinha ideias demais” acompanha Everardo e suas ideias criativas. A escritora também trabalha em uma autoficção sobre sua infância em Missão Velha, quando fazia catecismo.
Pesquisadora e doutora em Letras da Universidade Federal do Ceará, Luciana Bessa define a literatura como uma “arte política”. Para ela, a linguagem não é neutra: autores a constroem com intenção e podem levar leitores a refletir sobre as mensagens das obras.

