Dormir poucas horas de forma crônica reduz em 30% a capacidade cognitiva, e uma psicóloga especialista em sono explica o que isso significa no dia a dia

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Dormir pouco costuma ser tratado como sinônimo de produtividade. Em muitas rotinas, passar noites mal dormidas é visto como um sacrifício necessário para dar conta do trabalho, dos estudos ou das responsabilidades do dia a dia. Mas, segundo a psicóloga e especialista em medicina do sono Nuria Roure, o preço dessa escolha pode ser muito mais alto do que a simples sensação de cansaço.

A especialista afirma que dormir menos de seis horas por noite de forma crônica pode reduzir em até 30% a capacidade cognitiva. Na prática, isso significa que funções fundamentais do cérebro passam a operar abaixo do potencial, afetando desde a concentração até a tomada de decisões.

O que significa perder capacidade cognitiva?

Quando se fala em capacidade cognitiva, muitas pessoas pensam apenas na memória. No entanto, o conceito é mais amplo e envolve processos mentais essenciais para o funcionamento cotidiano.

Entre eles estão a atenção, a velocidade de raciocínio, a memória de trabalho, a criatividade, a capacidade de resolver problemas e a habilidade de tomar decisões.

Segundo Roure, a privação crônica de sono afeta justamente essas funções. O resultado pode aparecer em situações aparentemente simples, como esquecer compromissos, perder o foco durante uma reunião, ter dificuldade para organizar tarefas ou cometer erros que normalmente seriam evitados.

O cérebro nem sempre percebe que está funcionando pior

Um dos aspectos mais preocupantes da falta de sono é que muitas pessoas não conseguem avaliar corretamente o próprio desempenho.

Com o passar do tempo, quem dorme pouco de forma constante pode se acostumar à sensação de fadiga e passar a considerar aquele estado como normal. Quando surgem dificuldades de concentração ou lapsos de memória, é comum atribuir o problema ao estresse, à idade ou ao excesso de compromissos.

No entanto, especialistas em sono alertam que a redução do desempenho mental pode estar diretamente relacionada ao descanso insuficiente acumulado ao longo de semanas, meses ou até anos.

Foto: Kaboompics/Pexels

Por que a falta de sono afeta as decisões?

Pesquisas sobre sono e desempenho cognitivo mostram que a privação de descanso compromete especialmente funções ligadas ao córtex pré-frontal, região do cérebro associada ao planejamento, ao autocontrole, à avaliação de riscos e à tomada de decisões.

Quando essa área não funciona adequadamente, o cérebro tende a ter mais dificuldade para analisar consequências de longo prazo e controlar impulsos.

Ao mesmo tempo, sistemas ligados à busca por recompensas imediatas ganham mais influência sobre o comportamento. Isso ajuda a explicar por que pessoas privadas de sono podem agir de forma mais impulsiva, assumir riscos desnecessários ou tomar decisões menos refletidas.

Os impactos vão além do trabalho

Os efeitos da privação crônica de sono não ficam restritos ao ambiente profissional ou acadêmico. Eles também podem influenciar relacionamentos, hábitos de saúde e até a forma como as pessoas lidam com emoções.

Menor tolerância à frustração, irritabilidade e dificuldade para regular sentimentos estão entre as consequências frequentemente associadas a noites mal dormidas.

Por isso, especialistas defendem que o sono não deve ser encarado como um luxo ou uma recompensa reservada para quando sobra tempo. Trata-se de uma necessidade biológica tão importante quanto alimentação adequada e atividade física.

Dormir bem é uma forma de proteger o cérebro

Nuria Roure costuma destacar que o sono exerce um papel fundamental na preservação da saúde física e mental ao longo da vida. Durante o descanso, o cérebro realiza processos importantes relacionados à consolidação da memória, ao aprendizado e à recuperação de funções cognitivas.

Por isso, dormir bem não serve apenas para acordar com mais disposição no dia seguinte. É um investimento contínuo na capacidade de pensar com clareza, tomar decisões melhores e manter o cérebro funcionando de forma saudável ao longo dos anos.

Em uma sociedade que frequentemente valoriza agendas lotadas e noites curtas, a mensagem da especialista segue na direção oposta: reduzir horas de sono de forma constante pode parecer uma forma de ganhar tempo, mas, na prática, pode custar uma parcela significativa da capacidade mental que usamos todos os dias.

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