Um curativo desenvolvido com impressão 3D, material gelatinoso e óleo de semente de uva está sendo estudado para ajudar na cicatrização de feridas em pessoas com diabetes. O protótipo também produz pequenas descargas elétricas quando pressionado, característica que, segundo os pesquisadores, pode favorecer processos relacionados à reprodução celular.
A pesquisa foi idealizada por Yunes Natal Menezes Coelho, estudante de 21 anos de Engenharia Biomédica no Ensino Einstein. A experiência de acompanhar os cuidados do avô, que tem diabetes e teve feridas nos pés, motivou o projeto. O trabalho é orientado por Roger Borges, engenheiro de materiais, pesquisador e professor da graduação em Engenharia Biomédica do Ensino Einstein.
O material combina tecnologias e propostas de eficácia já conhecidas, como o uso do óleo de semente de uva, que tem ação cicatrizante. De acordo com Borges, o material gera pequenas descargas elétricas quando pressionado. Essas cargas podem favorecer a entrada de cálcio nas células, sinalizando ao organismo a necessidade de reprodução celular.
A impressão 3D permite controlar a porosidade do curativo, para contribuir com o funcionamento combinado de suas propriedades. Borges aponta como diferencial o desenvolvimento voltado à pele: segundo ele, a maioria dos biomateriais é pensada para cicatrização de ossos e costuma ser feita com cerâmicas rígidas.
Em estudos in vitro, o curativo demonstrou capacidade de gerar as descargas elétricas esperadas e bons níveis de segurança na manipulação do material. A possibilidade de uso em tecidos moles também foi apontada como uma inovação. O protótipo esteve entre os apresentados na Materials Science and Technology Conference 2026, realizada naquela semana nos Estados Unidos.
Os próximos passos incluem testes com células da pele para avaliar o impacto da ação combinada. Depois, estão previstos estudos pré-clínicos, com animais. Também serão necessárias análises em humanos para verificar a eficácia e a segurança do curativo na prática. Os resultados descritos até agora não confirmam que o produto já possa ser usado como tratamento.
Cuidados com os pés
Feridas de difícil cicatrização podem surgir em pessoas com diabetes, especialmente nos pés. Segundo a endocrinologista Geísa Maria Campos de Macedo, coordenadora do departamento de Neuropatias e Complicações nos Pés da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), a hiperglicemia prolongada, o estresse oxidativo e outras alterações metabólicas podem provocar inflamações nos vasos sanguíneos e reduzir a chegada de sangue e nutrientes aos tecidos.
A doença também pode prejudicar a resposta imunológica. Quando há neuropatia diabética, os nervos periféricos dos pés podem ser afetados, reduzindo a sensibilidade e dificultando que a pessoa perceba uma lesão. Em casos avançados, pode ser necessária a amputação de um membro.
Manter sob controle a glicemia, o colesterol, os triglicérides e a pressão arterial são medidas importantes para evitar complicações. Pés inchados, muito avermelhados ou com lesões exigem atenção médica imediata. A médica afirma que, após uma úlcera, a possibilidade de recidiva chega a 60% no primeiro ano.
Entre os cuidados recomendados estão usar calçados adequados, evitar andar descalço, ter atenção ao cortar as unhas e manter a pele hidratada. Macedo orienta que pessoas com diabetes façam avaliação dos pés com profissional especializado no mínimo uma vez por ano.

