Joan Prince Crandall começou a trabalhar como comissária de bordo em 1959, na antiga Pacific Airlines. Seu primeiro voo foi a bordo de um Douglas DC-3, avião configurado para apenas 24 passageiros. Mais de seis décadas depois, ela ainda está nos céus.
Com mais de 66 anos de serviço ininterrupto, Crandall é apontada pela Delta Air Lines, sua empregadora atual, como a comissária de bordo com o maior tempo de atividade registrado em todo o setor global. Ao longo da carreira, atravessou sucessivas fusões que integraram companhias como Air West, Hughes Airwest, Republic Airways e NorthWest, sempre seguindo em frente.
Ela começou numa era em que saltos altos e uniformes elegantes eram obrigatórios, e as exigências sobre o corpo feminino iam muito além da aparência. As companhias controlavam o peso das funcionárias, determinavam demissão em caso de casamento e impunham aposentadoria compulsória aos 32 anos.
A lei que mudou tudo para as mulheres na aviação
A virada veio com a Lei dos Direitos Civis de 1964 nos Estados Unidos. O projeto original focava na proibição de discriminações por raça, cor, religião ou origem nacional, mas uma emenda de última hora inseriu as palavras “e sexo” no texto final.
Registros históricos indicam que a inclusão foi uma tentativa de obstruir a aprovação da lei pelas bancadas opositoras. A manobra não funcionou: o projeto foi aprovado e se tornou lei federal, garantindo proteções inéditas às trabalhadoras da aviação.
A partir dali, as comissárias puderam se casar e constituir família sem risco de demissão. A profissão deixou de ser encarada como um emprego temporário de poucos anos e passou a se consolidar como carreira de longo prazo, com remuneração média anual chegando a cerca de US$ 70.980 na época.
Da hélice ao jato: 66 anos de transformação
Crandall voou em aeronaves a hélice como o Martin 404 e o Fairchild F-27 antes de ver a aviação comercial se reinventar completamente. A chegada dos jatos, na mesma década em que o homem pisou na Lua, exigiu um reposicionamento das tripulações, que passaram a atuar como agentes de segurança em evacuações de emergência.
A escala cresceu de forma vertiginosa. O Douglas DC-3 dos seus primeiros voos transportava 24 passageiros. O Airbus A350-900, que opera na frota atual da Delta, comporta até 306.
Crandall atribui sua longevidade na profissão à boa saúde física e ao prazer que ainda sente no trabalho. Ela atua frequentemente como comissária-chefe, liderando as equipes de voo.
A aposentadoria está próxima. Em um encontro recente no Centro de Formação de Bordo, ela compartilhou experiências com Alise Broussard, recém-graduada pela Universidade Estadual da Louisiana. Depois que encerrar os voos, os planos incluem escrever um livro de memórias e viajar para Paris, Mumbai e Hong Kong.
