A falta de um ajuste consistente das contas públicas em 2027 poderia provocar uma deterioração significativa dos mercados brasileiros, com impactos sobre juros, câmbio, inflação e ações. Em um dos cenários mais extremos analisados por especialistas da Empiricus e do BTG Pactual, os juros futuros poderiam se aproximar de 20% ao ano, o dólar chegar a R$ 7,50 e o Ibovespa cair para a região de 89 mil pontos.
As estimativas fazem parte do relatório “E se o Governo não ajustar as contas públicas?”, divulgado em agosto. O estudo não apresenta essas marcas como previsões, mas como um exercício de estresse para medir como os ativos poderiam reagir caso o mercado perdesse a confiança na capacidade do próximo governo de estabilizar a dívida.
O alerta ganha relevância às vésperas das eleições de 2026. Para o investidor, a questão deixa de ser apenas quanto a dívida pode crescer e passa a envolver uma consequência mais prática: como proteger o patrimônio caso o cenário fiscal se deteriore?
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Por que o quadro fiscal preocupa o mercado?
A dívida bruta do Governo Geral chegou a 82,5% do Produto Interno Bruto (PIB) em julho de 2026, equivalente a aproximadamente R$ 10,9 trilhões, segundo o Banco Central. O indicador subiu 0,6 ponto percentual em relação a junho e acumulou alta de 3,9 pontos no ano.
O problema não está apenas no tamanho da dívida. A dinâmica entre resultado fiscal, pagamento de juros e crescimento econômico também determina se o endividamento tende a se estabilizar ou continuar aumentando.
Em 12 meses até julho, os juros nominais do setor público chegaram a 8,67% do PIB, enquanto o déficit nominal alcançou 9,34% do PIB. O resultado mostra o peso que o custo financeiro da dívida exerce sobre as contas públicas.
O relatório da Empiricus e do BTG Pactual estima que a estabilização da dívida exigiria um resultado primário próximo de 2,1% do PIB, diante de um déficit primário de 1,19% do PIB considerado na análise. Isso representa uma melhora superior a três pontos percentuais nas contas públicas.
O que é resultado primário?
O resultado primário mede a diferença entre receitas e despesas do governo antes do pagamento dos juros da dívida.
Quando há superávit, significa que o governo arrecadou mais do que gastou nas despesas consideradas no cálculo. Quando há déficit, ocorre o contrário.
Para o mercado, resultados primários recorrentes são relevantes porque ajudam a determinar se o governo conseguirá controlar a trajetória da dívida sem depender continuamente de novas emissões.
Por que o problema fiscal afeta juros, dólar e bolsa?
A relação ocorre principalmente por meio da percepção de risco.
Se investidores acreditarem que o governo terá dificuldade para controlar as despesas e estabilizar a dívida, podem exigir uma remuneração maior para financiar o país. Isso tende a pressionar os juros de longo prazo.
Ao mesmo tempo, uma percepção maior de risco pode reduzir a demanda por ativos brasileiros e aumentar a procura por moedas fortes, pressionando o dólar.
Na Bolsa, juros mais elevados aumentam a taxa utilizada para descontar os lucros futuros das empresas. Com isso, os preços considerados razoáveis para as ações podem cair, especialmente entre companhias mais sensíveis ao custo de capital.
O próprio Banco Central acompanha a interação entre política fiscal, inflação, juros e ativos financeiros. Em junho, ao reduzir a Selic para 14,25% ao ano, o Copom destacou que a condução da política monetária continuava condicionada a um ambiente de elevada incerteza.
Quais são os três cenários para 2027?
Os analistas trabalham com diferentes níveis de deterioração do quadro fiscal. Quanto maior a perda de confiança, maior seria a pressão sobre os ativos brasileiros.
1. Cenário adverso
No primeiro estágio, o mercado ainda manteria alguma expectativa de estabilização das contas públicas.
O governo conseguiria cumprir parte de suas metas recorrendo a medidas como receitas temporárias, abatimentos e redução de despesas discricionárias. Ainda assim, o resultado primário permaneceria deficitário e a dívida poderia se aproximar de 90% do PIB.
Nesse ambiente, os juros futuros, o dólar e a Bolsa seriam pressionados, embora o diferencial de juros ainda pudesse oferecer algum suporte ao real.
Para os analistas, empresas exportadoras e companhias pouco endividadas poderiam apresentar maior resistência relativa diante desse cenário.
2. Cenário severo
A situação se agravaria caso o mercado abandonasse a expectativa de que a dívida será estabilizada.
Nesse caso, a reprecificação dos ativos seria mais ampla. O dólar poderia superar R$ 6,60, enquanto o Ibovespa poderia recuar para aproximadamente 116 mil pontos, segundo o estudo.
A dívida caminharia para a região de 95% do PIB e posteriormente poderia atingir 100%, aumentando a pressão sobre a política monetária.
O Banco Central poderia interromper cortes de juros ou até retomar um ciclo de aperto caso as expectativas de inflação se deteriorassem.
3. Cenário de ruptura
O terceiro cenário é o mais extremo e pressupõe uma combinação de fatores adversos: flexibilização profunda das regras fiscais, desancoragem das expectativas de inflação e condições externas desfavoráveis.
Nesse caso, o relatório estima que a curva de juros futuros, representada pelo contrato DI de janeiro de 2031, poderia chegar perto de 20% ao ano.
O dólar poderia atingir R$ 7,50, enquanto o Ibovespa cairia para aproximadamente 89 mil pontos.
Esse é um exercício de estresse, e não uma previsão de que esses valores necessariamente serão atingidos. O objetivo é mostrar o tamanho da reprecificação que poderia ocorrer em uma eventual ruptura de confiança.
O Brasil poderia quebrar?
Não necessariamente da forma tradicional associada a uma crise de solvência.
Segundo a análise, um eventual problema brasileiro teria maior probabilidade de aparecer por meio de inflação mais elevada, juros reais persistentemente altos, desvalorização cambial e perda gradual de valor dos ativos domésticos.
A composição da dívida também é relevante. A dívida pública brasileira é majoritariamente denominada em reais, enquanto o país mantém reservas internacionais, fatores que reduzem a possibilidade de um calote externo clássico.
Isso, porém, não elimina os efeitos econômicos de uma deterioração fiscal.
Para famílias e empresas, juros elevados encarecem o crédito. Para companhias, o custo de capital aumenta. Para investidores, a combinação de inflação, câmbio volátil e queda dos múltiplos pode reduzir o retorno real dos investimentos.
Onde investir em uma eventual crise fiscal?
Não existe uma carteira capaz de eliminar completamente os efeitos de uma crise. O caminho apontado pelos analistas é reduzir a concentração em um único cenário econômico.
A estratégia apresentada no relatório prioriza diversificação internacional, liquidez, crédito selecionado e ativos de proteção.
Entre as classes mencionadas estão:
- Ações internacionais, com empresas expostas a moedas fortes e diferentes economias;
- Renda fixa global, incluindo ETFs ligados a títulos do Tesouro dos Estados Unidos;
- Metais e estruturas de proteção, para diversificar o risco da carteira;
- Caixa e crédito, incluindo instrumentos que possam oferecer renda e liquidez;
- Ativos defensivos, que possam funcionar como proteção diante de uma abertura da curva de juros ou queda da Bolsa.
A lógica por trás da diversificação internacional é simples: se o problema estiver concentrado no Brasil, parte do patrimônio estará exposta a economias e moedas diferentes.
Isso não significa que todo investidor deva comprar os mesmos ativos. A composição adequada depende de prazo, tolerância a risco, necessidade de liquidez e objetivos financeiros.
Renda fixa seria uma boa alternativa?
Juros elevados podem tornar a renda fixa brasileira mais atrativa em determinados momentos, mas isso não significa que qualquer título seja automaticamente seguro ou vantajoso.
Títulos prefixados, por exemplo, podem sofrer forte oscilação de preço quando as taxas de mercado sobem. Já investimentos indexados à inflação podem oferecer proteção diferente, desde que mantidos dentro das condições adequadas para cada investidor.
O próprio Tesouro Direto explica que os preços e as taxas dos títulos são atualizados ao longo do dia para refletir as condições do mercado secundário.
Por isso, uma eventual alta dos juros para perto de 20% não deveria ser interpretada simplesmente como uma oportunidade para “travar” toda a carteira. O comportamento dos títulos depende também do prazo, da marcação a mercado e da trajetória posterior das taxas.
E quem já investe em ações?
Em um cenário de deterioração fiscal, a Bolsa pode sofrer por dois canais.
O primeiro é o aumento da taxa de desconto utilizada pelos investidores. O segundo é a possibilidade de uma economia mais fraca reduzir as expectativas de lucro das empresas.
Ainda assim, o impacto não seria necessariamente uniforme.
Empresas exportadoras, companhias com menor endividamento e negócios com receitas vinculadas ao dólar podem apresentar comportamento diferente de empresas altamente dependentes do mercado doméstico e do crédito.
Por isso, diversificar dentro da própria Bolsa também pode ser relevante.
O que o investidor deve acompanhar até 2027?
Mais importante do que tentar antecipar exatamente onde estarão dólar, juros ou Ibovespa é acompanhar os sinais que podem indicar mudança na percepção de risco.
Entre os principais pontos estão:
- Trajetória da dívida pública;
- Resultado primário e cumprimento das metas fiscais;
- Evolução das despesas obrigatórias;
- Expectativas de inflação;
- Curva de juros futuros;
- Comportamento do real diante do dólar;
- Propostas econômicas dos candidatos nas eleições de 2026;
- Capacidade do próximo governo de aprovar medidas de ajuste no Congresso.
Esses indicadores ajudam a diferenciar uma simples volatilidade de mercado de uma deterioração estrutural das expectativas.
O que pode evitar o cenário de ruptura?
O cenário mais extremo descrito no relatório não é inevitável.
Uma melhora da trajetória fiscal poderia ocorrer caso o próximo governo consiga apresentar medidas capazes de reduzir o crescimento das despesas, gerar resultados primários consistentes e convencer o mercado de que a dívida poderá ser estabilizada.
Nesse caso, o efeito poderia ser justamente o oposto do cenário de estresse: queda dos juros de longo prazo, fortalecimento da percepção sobre o real e recuperação dos ativos domésticos.
A própria Empiricus trabalha também com um cenário em que uma consolidação fiscal crível abriria espaço para oportunidades em renda fixa, crédito de infraestrutura e ativos brasileiros mais sensíveis à queda dos juros.
O que muda para o brasileiro comum?
Mesmo quem não investe diretamente em ações ou títulos públicos pode sentir os efeitos de uma deterioração fiscal.
Juros elevados tendem a encarecer financiamentos e empréstimos. Uma moeda mais fraca pode aumentar o preço de produtos importados e de itens com componentes dolarizados.
A inflação também pode afetar o poder de compra, enquanto empresas podem reduzir investimentos diante de um ambiente de crédito mais caro e maior incerteza.
Por outro lado, quem possui investimentos atrelados a juros, inflação ou moedas estrangeiras pode ter uma proteção maior, dependendo da composição da carteira.
Afinal, o dólar pode chegar a R$ 7,50?

Pode, dentro do cenário de estresse elaborado pelos analistas, mas não se trata de uma previsão.
O valor de R$ 7,50 aparece especificamente no chamado cenário de ruptura, que pressupõe uma deterioração significativa das contas públicas, perda de confiança, desancoragem inflacionária e condições externas desfavoráveis.
Da mesma forma, os 20% nos juros e os 89 mil pontos no Ibovespa representam níveis utilizados para dimensionar uma eventual reprecificação extrema dos mercados.
O investidor não deve interpretar esses números como uma indicação de que serão necessariamente alcançados em 2027.
Conclusão
O principal alerta do relatório da Empiricus e do BTG Pactual não está em um número isolado, mas na possibilidade de uma perda gradual de confiança na trajetória das contas públicas.
A dívida bruta já alcançou 82,5% do PIB e os juros têm peso expressivo no resultado fiscal brasileiro.
Se o próximo governo conseguir construir um ajuste fiscal crível, o mercado pode reagir positivamente. Se isso não acontecer e a percepção de risco aumentar, juros, câmbio e Bolsa podem passar por uma reprecificação significativa.
Para o investidor, a principal lição é evitar depender de uma única aposta. Diversificação, liquidez e exposição a diferentes economias podem reduzir a vulnerabilidade da carteira diante de um cenário que ainda é incerto.
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