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Primeira praia de surfe no Sul não é mais a preferida dos surfistas

Durante décadas, um trecho do litoral gaúcho foi sinônimo de ondas, pranchas e encontros que ajudaram a moldar a cultura do surfe no Sul do Brasil. O local ganhou fama justamente por reunir condições naturais raras na época e por ser palco de histórias que…

Durante décadas, um trecho do litoral gaúcho foi sinônimo de ondas, pranchas e encontros que ajudaram a moldar a cultura do surfe no Sul do Brasil. O local ganhou fama justamente por reunir condições naturais raras na época e por ser palco de histórias que atravessaram gerações.

Com o passar do tempo, porém, mudanças no comportamento dos praticantes, na dinâmica do mar e até no uso do espaço alteraram a relação dos surfistas com essa praia histórica. Hoje, o cenário é diferente daquele que marcou o início do esporte no Estado.

Guarita foi o berço do surfe gaúcho, mas perdeu protagonismo

A Praia da Guarita, em Torres, entrou para a história nos anos 1960 como o local onde o surfe começou no Rio Grande do Sul. Na época, a praia era pouco frequentada, cercada por falésias e dunas, e atraía apenas moradores locais e alguns visitantes curiosos.

Foi nesse cenário quase isolado que jovens passaram a testar pranchas trazidas de fora do Estado. Entre eles estavam os irmãos Jorge, Klaus e Frederico Gerdau Johannpeter, acompanhados do amigo Fernando Sefton, que haviam conhecido o surfe no Rio de Janeiro. As primeiras pranchas eram simples, feitas de compensado naval, e exigiam criatividade até para entrar no mar.

Aos poucos, a Guarita virou ponto de encontro. Surfistas, curiosos e veranistas se reuniam para observar manobras ainda raras no Sul. O crescimento da prática levou, inclusive, à realização do primeiro campeonato de surfe do Rio Grande do Sul, em 1968, consolidando a praia como referência do esporte por muitos anos.

Com o tempo, no entanto, a Guarita passou a ser mais buscada por quem procura tranquilidade, caminhadas e contato com a natureza. O movimento intenso no mar, a variação das ondas e o perfil mais calmo do público afastaram parte dos surfistas, especialmente os mais jovens.

Molhes e Ilha dos Lobos concentram os surfistas atualmente

Atualmente, o principal ponto de surfe em Torres é a Praia dos Molhes. A área, localizada próxima à divisa com Santa Catarina, ganhou força a partir da década de 1980 e passou a atrair praticantes por oferecer ondas mais constantes e melhor adaptação às mudanças de vento.

Surfistas locais explicam que, mesmo em dias menos favoráveis, os Molhes costumam garantir alguma condição para entrar no mar. O estilo das ondas favorece manobras rápidas e progressivas, o que agrada principalmente a nova geração. Além disso, a região se tornou um ponto de convivência, com quiosques e espaços que fortalecem a comunidade do surfe.

Outro local que marcou época foi o entorno da Ilha dos Lobos, conhecida pelas ondas altas e bem formadas, consideradas por alguns surfistas entre as melhores do país. Descoberta no fim dos anos 1980, a área ganhou fama pelas condições quase perfeitas em dias específicos. No entanto, desde 2003, o surfe está proibido no local por se tratar de uma unidade de conservação ambiental. Estudos em andamento podem, no futuro, discutir a liberação controlada de esportes na região.

Enquanto isso, a memória do surfe em Torres tenta se manter viva por meio do Memorial do Surf, hoje instalado próximo aos Molhes. O espaço guarda parte da história iniciada na Guarita, embora enfrente desafios de conservação e estrutura. Assim, a praia que deu origem ao surfe no Sul segue como símbolo histórico, mesmo não sendo mais a principal escolha dos surfistas.