Quase três meses após a abertura do inquérito sobre o financiamento do filme Dark Horse, a Polícia Federal (PF) não identificou, nos documentos examinados, registro de atuação do senador Flávio Bolsonaro em benefício de Daniel Vorcaro ou do Banco Master. Os registros também não apontam uso de recursos públicos na produção.
O inquérito tramita no Supremo Tribunal Federal (STF), sob relatoria do ministro André Mendonça, e apura possíveis crimes de evasão de divisas, organização criminosa, lavagem de dinheiro e corrupção ativa. Segundo a investigação, Vorcaro teria se comprometido a investir US$ 24 milhões no longa, dos quais cerca de US$ 12,3 milhões teriam sido remetidos em 2025.
Em despacho de 15 de outubro, a PF contabilizou sete remessas, realizadas entre fevereiro e setembro de 2025, que somaram US$ 12.333.335. Os valores passaram por contratos de câmbio nos bancos BS2 e Topázio e foram enviados a uma conta do Havengate Development Fund LP no JPMorgan Chase, nos Estados Unidos. Com IOF, o montante equivale a aproximadamente R$ 71,1 milhões.
A PF afirmou que os documentos confirmam transferências, valores, instituições e destinatário, em montantes coincidentes com os declarados pelo colaborador. Antônio Carlos Freixo Júnior, responsável pelas remessas, disse em depoimento que as operações foram informadas ao Banco Central por meio da Declaração de Capitais Brasileiros no Exterior.
Uma carta-acordo da gestora Calixsan Capital Management vincula os US$ 24 milhões à produção do filme. A PF observou, porém, divergência entre essa destinação e a declaração de Freixo de que desconhecia a finalidade dos valores. Apenas a primeira página da carta foi apresentada.
A Ancine informou à PF, em 27 de agosto, não haver registros de pedidos, autorizações ou uso de incentivos fiscais, recursos públicos federais ou outros benefícios ligados ao filme. A informação foi reiterada em despachos posteriores.
Os documentos examinados não registram ato de ofício, contrapartida ou atuação parlamentar de Flávio em favor de Vorcaro ou do Master. A PF pediu mais 90 dias para a investigação; Freixo foi o único ouvido até o momento. A ausência desses registros não encerra o inquérito, que segue aberto para esclarecer as inconsistências.

