Após mais de cem anos de atividade industrial em solo brasileiro, uma das marcas mais tradicionais do setor de vestuário decidiu transferir parte de sua produção para fora do país.
A mudança marca o fim de um ciclo iniciado há 104 anos e sinaliza as dificuldades enfrentadas pela indústria têxtil diante do atual cenário econômico nacional.
A decisão foi motivada pelo aumento expressivo dos custos para produzir no Brasil, especialmente após mudanças no sistema tributário e o enfraquecimento de incentivos fiscais concedidos por estados. Segundo a empresa, manter toda a cadeia produtiva no país deixou de ser financeiramente sustentável.
Trajetória atravessou crises históricas
Ao longo de mais de um século, a companhia atravessou períodos turbulentos da economia global sem interromper sua produção no Brasil. Sobreviveu à crise de 1929, ao impacto da Segunda Guerra Mundial, a décadas de inflação elevada e, mais recentemente, aos efeitos da pandemia da Covid-19.
Mesmo com esse histórico de resiliência, a empresa afirma que o ambiente de negócios atual impôs limites difíceis de contornar. O aumento da carga tributária e a complexidade regulatória acabaram pesando mais do que o vínculo histórico com o país.
Produção no Paraguai reduz custos em quase um terço
A nova fase começou em junho deste ano, com a inauguração de uma fábrica da Lupo em Ciudad del Este, no Paraguai. O investimento ultrapassou R$ 30 milhões, e a unidade tem capacidade para produzir até 20 milhões de pares de meias por ano. Cerca de 110 funcionários atuam diretamente na planta industrial.
Segundo estimativas internas, a operação no país vizinho reduz os custos de produção em aproximadamente 28%. A economia vem principalmente da menor carga tributária e de regras mais simples para a atividade industrial. A proximidade com o Brasil e a Argentina também contribui para otimizar a logística de distribuição.
Regime de maquila impulsiona migração industrial
A Lupo passou a operar no Paraguai sob o regime de maquila, que permite importar insumos com tributação reduzida desde que a produção seja voltada à exportação. O modelo tem se tornado atrativo para empresas têxteis que buscam manter competitividade em um cenário de margens cada vez mais apertadas.
Nos últimos anos, outras companhias do setor também passaram a considerar o Paraguai como alternativa diante do aumento dos custos no Brasil.
Empresa descarta estratégia de longo prazo
De acordo com a companhia, a decisão não fazia parte de um plano de expansão internacional estruturado. A mudança foi descrita como uma reação direta às condições econômicas atuais. Executivos afirmam que o deslocamento da produção foi uma medida necessária para preservar a viabilidade do negócio.
Apesar da transferência, a marca segue com operações comerciais no Brasil, mas o encerramento de uma parte relevante da produção simboliza uma mudança significativa no mapa industrial do setor têxtil nacional.