A proximidade do fim da patente da semaglutida no Brasil gerou a esperança de que versões nacionais mais acessíveis chegariam rapidamente ao mercado. Muitos consumidores passaram a acreditar que o preço das canetas para perda de peso cairia já nas próximas semanas.
No entanto, análises do setor farmacêutico indicam que essa expectativa pode estar alta demais. Mesmo com o fim da exclusividade, há obstáculos regulatórios, industriais e comerciais que devem limitar a concorrência e manter os valores próximos dos atuais no curto prazo.
Queda da patente não garante desconto expressivo imediato
A patente da semaglutida, princípio ativo do Ozempic, perde validade em 20 de março. Ainda assim, especialistas avaliam que a redução de preços não deve acontecer de forma rápida nem intensa neste primeiro momento.
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Um dos principais motivos é que os produtos brasileiros em análise na Agência Nacional de Vigilância Sanitária são, em sua maioria, classificados como similares e não como genéricos. Isso faz diferença no preço final.
Enquanto os genéricos precisam ser vendidos com desconto mínimo de 35% em relação ao medicamento de referência, os similares exigem abatimento menor, em torno de 20%. Na prática, isso significa que uma caneta que hoje tem preço de tabela de R$ 1.299,70 poderia chegar às farmácias por cerca de R$ 1.039,76.
Embora seja possível encontrar o medicamento por valores próximos de R$ 999 devido a promoções, esses descontos dependem da estratégia comercial do laboratório e podem mudar a qualquer momento. Já o preço máximo autorizado só pode ser reajustado com aval da Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos.
Projeções do mercado financeiro indicam que a queda inicial pode ficar abaixo de 30%, com valores em torno de R$ 900. Reduções maiores, próximas de 50%, são consideradas possíveis apenas ao longo de vários anos, caso a concorrência aumente de fato.
O histórico da liraglutida, geração anterior das canetas emagrecedoras, ajuda a entender o cenário. Oito meses após o lançamento das versões similares, a redução real ficou pouco acima de 20% nos preços de tabela. Com descontos comerciais, os valores variaram mais, mas nem sempre se mantiveram estáveis.
Além disso, a própria fabricante do Ozempic já anunciou estratégias promocionais para manter espaço no mercado, como ofertas envolvendo o Wegovy. Isso pode frear uma queda mais agressiva por parte dos concorrentes nacionais.
Produção complexa, concorrência limitada e mercado aquecido seguram preços
Outro fator que esfria a expectativa é a dificuldade de fabricar esse tipo de medicamento. Diferentemente de comprimidos comuns, as canetas injetáveis exigem estruturas industriais mais caras, controle rigoroso de esterilidade, monitoramento ambiental constante e testes que garantam estabilidade durante o transporte refrigerado.
A construção de fábricas aptas para essa produção pode custar bilhões de reais. A EMS, por exemplo, investiu R$ 1,2 bilhão em uma planta em Hortolândia. Já a Novo Nordisk está construindo uma unidade em Minas Gerais com investimento de R$ 6,4 bilhões, embora ainda não produza as canetas no país.
No campo regulatório, a Anvisa analisa 14 pedidos para produção de semaglutida. A agência deve liberar no máximo três autorizações por semestre, o que pode estender o processo até 2028. Isso limita a entrada simultânea de vários concorrentes.
Mesmo após a autorização, o lançamento não é imediato. A EMS estima que precisaria de pelo menos 90 dias após o registro para colocar o produto nas farmácias, devido à compra de insumos, produção e distribuição nacional.
A concorrência também não será ampla no início. Poucos laboratórios brasileiros têm estrutura para produzir localmente. Muitos optam por parcerias com empresas estrangeiras, principalmente asiáticas, seja para importar o produto pronto e reembalar, seja para terceirizar a fabricação. Essas alternativas envolvem custos de importação e impostos que podem reduzir a margem para descontos.
Enquanto isso, o mercado segue aquecido. Em janeiro de 2026, os medicamentos à base de semaglutida da Novo Nordisk somaram R$ 453,2 milhões em vendas. No mesmo mês, o Mounjaro, da Eli Lilly, alcançou R$ 850 milhões, mostrando como a concorrência já pressiona o setor antes mesmo da queda da patente.
O segmento das canetas emagrecedoras movimentou cerca de R$ 12 bilhões no Brasil no ano passado e deve chegar a R$ 24,6 bilhões neste ano, segundo estimativas do Itaú BBA. Até 2030, o faturamento pode ultrapassar R$ 50 bilhões.
Esse crescimento é impulsionado não apenas pelo tratamento da obesidade, mas também pelo uso em outras condições, como doenças cardiovasculares, além da procura estética. O Brasil é um dos países que mais realiza procedimentos estéticos no mundo, o que amplia o público interessado nesses medicamentos.
Há ainda a pressão da venda ilegal, que inclui produtos vindos do Paraguai e manipulação irregular em farmácias. Segundo estimativas do setor, milhões de doses podem ter circulado fora do mercado formal, o que adiciona mais instabilidade ao cenário.