Furacões são fenômenos frequentes em regiões como o Caribe, o Golfo do México e a costa leste dos Estados Unidos, onde imagens de destruição costumam ocupar espaço nos noticiários internacionais todos os anos. No Brasil, porém, a ocorrência desse tipo de tempestade é extremamente rara, o que levanta uma dúvida recorrente: afinal, é possível que furacões atinjam o território brasileiro?
Do ponto de vista científico, a resposta é sim, embora a probabilidade seja muito baixa. O Brasil não está protegido por uma “barreira invisível”, mas se beneficia de um conjunto de fatores climáticos e geográficos que dificultam a formação e a intensificação de furacões, especialmente ao longo da costa do Atlântico Sul.
Esses sistemas se formam a partir de áreas de baixa pressão que encontram condições muito específicas para se desenvolver. Entre os principais requisitos estão águas oceânicas quentes, geralmente acima de 26,5 °C, grande disponibilidade de umidade e baixo cisalhamento do vento, ou seja, pouca variação na direção e na velocidade dos ventos em diferentes altitudes. Quando esses elementos se combinam, a tempestade pode ganhar força e atingir o status de furacão, com ventos superiores a 119 km/h.
No Hemisfério Norte, especialmente no Atlântico Norte, essas condições ocorrem com frequência durante boa parte do ano. Já no Atlântico Sul, onde está localizada a costa brasileira, o cenário é diferente. As águas costumam ser mais frias, o cisalhamento do vento é mais intenso e os sistemas atmosféricos tendem a se deslocar de forma que impede a organização necessária para a formação de furacões.
O caso do Catarina e os limites da previsão climática
Durante décadas, a comunidade científica considerou praticamente impossível a formação de furacões no Atlântico Sul. Esse entendimento começou a ser revisto a partir dos anos 1980, com o avanço do monitoramento por satélite, que permitiu identificar ciclones tropicais que não chegavam a se intensificar completamente.
A mudança definitiva nessa percepção ocorreu em 2004, com o registro do Furacão Catarina. O sistema atingiu o litoral de Santa Catarina e entrou para a história como o primeiro furacão documentado a tocar o continente brasileiro. O Catarina se formou a partir de um ciclone extratropical que, devido a uma combinação rara de fatores, encontrou águas mais quentes que o normal e baixo cisalhamento do vento.
Além disso, uma área de alta pressão no Atlântico Sul bloqueou o deslocamento natural do sistema, permitindo que ele permanecesse tempo suficiente sobre o oceano para ganhar energia e características tropicais. Esse conjunto de circunstâncias é considerado excepcional pelos meteorologistas.
Desde então, o Brasil não voltou a registrar nenhum furacão com características semelhantes. Especialistas afirmam que as condições predominantes no Atlântico Sul continuam desfavoráveis à formação desse tipo de fenômeno. Por isso, eventos como o Catarina são classificados como extremamente raros, sem recorrência prevista no curto ou médio prazo, segundo os padrões climáticos atualmente observados.