Dentro do nosso corpo existe um universo invisível que trabalha todos os dias para manter o organismo em funcionamento. Esse conjunto de microrganismos, conhecido como microbiota intestinal, participa de processos que vão muito além da digestão.
A alimentação tem papel central nesse equilíbrio. Nos últimos anos, pesquisadores passaram a investigar como ingredientes comuns em produtos industrializados podem interferir nesse ecossistema interno. Entre os principais alvos estão conservantes e emulsificantes presentes em alimentos ultraprocessados.
Como os aditivos podem afetar a microbiota intestinal
A microbiota pode ser comparada a uma floresta. Quanto maior a variedade de bactérias, maior a capacidade do intestino de reagir a mudanças e agressões externas. Uma comunidade diversa está ligada a melhor saúde metabólica, menor inflamação e até maior longevidade.
O problema é que certos aditivos, usados para prolongar a validade e melhorar textura e aparência dos alimentos, vêm sendo associados a alterações nesse equilíbrio.
Entre eles estão os emulsificantes, substâncias que permitem misturar água e gordura e que aparecem com frequência em produtos como:
- Pães industrializados
- Bolos prontos
- Sorvetes
- Biscoitos recheados
- Molhos e refeições prontas
Esses compostos ajudam a manter o alimento macio, estável e com boa aparência por mais tempo. No entanto, pesquisas indicam que podem interferir na camada de muco que protege a parede do intestino.
Estudos em animais
Experimentos conduzidos pelo microbiólogo Benoit Chassaing mostraram que, em camundongos, pequenas quantidades de emulsificantes levaram bactérias a se aproximarem da parede intestinal. Isso favoreceu inflamações e sinais de doenças intestinais.
Animais que já tinham predisposição a problemas digestivos apresentaram quadros ainda mais graves.
Evidências em humanos
Pesquisas observacionais também apontaram associações entre maior consumo de emulsificantes e risco aumentado de:
- Doença inflamatória intestinal
- Síndrome do intestino irritável
- Diabetes tipo 2
- Alguns tipos de câncer
Em um estudo com mais de 100 mil adultos na França, maior exposição a emulsificantes foi relacionada a maior probabilidade de desenvolver diabetes tipo 2. Outro levantamento com mais de 90 mil participantes encontrou possíveis vínculos com câncer de mama e próstata.
Além disso, testes em humanos mostraram que determinados espessantes comuns podem reduzir a quantidade de bactérias consideradas benéficas no intestino.
Ultraprocessados, diversidade bacteriana e efeito combinado
Um estudo conduzido por Melissa Lane comparou duas dietas com calorias e nutrientes semelhantes, mas com diferentes níveis de ultraprocessados. Um grupo consumiu principalmente shakes, sopas e barras industrializadas. O outro seguiu uma alimentação baseada em alimentos frescos e pouco processados.
Ambos os grupos perderam peso de forma semelhante. Porém, o grupo com maior consumo de ultraprocessados apresentou menor diversidade de bactérias intestinais e maior frequência de prisão de ventre.
Já quem consumiu mais alimentos integrais e variados mostrou microbiota mais diversificada. A diferença pode estar na presença de fibras naturais e menor quantidade de aditivos.
Pesquisadores também discutem o chamado efeito coquetel. Isso significa que não é apenas um aditivo isolado que pode influenciar a saúde, mas a combinação de vários deles ao longo do tempo.
Embora esses ingredientes sejam aprovados por órgãos reguladores e considerados seguros do ponto de vista de toxicidade e danos ao DNA, ainda existem poucos testes avaliando diretamente seus impactos sobre a microbiota.
Especialistas defendem que não é necessário eliminar completamente todos os produtos industrializados, mas sugerem equilíbrio. Priorizar alimentos frescos, ricos em fibras e polifenóis, ajuda a nutrir as bactérias benéficas e fortalecer o intestino.
Cozinhar mais em casa, variar fontes de vegetais e reduzir o consumo frequente de ultraprocessados são estratégias apontadas como formas práticas de proteger esse ecossistema interno que funciona como um verdadeiro órgão adicional do corpo.