# Como um médico ganhou o Nobel por cirurgia hoje vista como um dos maiores erros da história da medicina

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- Published: 2026-09-06T09:16:28-03:00
- Author: Felip trends

Um **cirurgião** perfura o crânio do paciente dos dois lados, na altura das têmporas.
Por cada furo, ele insere um tubo fino de metal, que tem, na ponta, um fio retrátil
que se abre como um laço. Ele gira o instrumento dentro do cérebro e corta um círculo
no lobo frontal.

Seis cortes de cada lado, doze ao todo. Isso é, na prática, a **leucotomia pré-frontal**—
um procedimento que ficaria conhecido como **lobotomia**. Com o paciente sob anestesia
geral, destruíam-se partes do cérebro como tratamento psiquiátrico.

O procedimento era rápido: pacientes eram operados no mesmo dia em que chegavam 
ao hospital e voltavam ao internamento psiquiátrico em até dez dias.

A ideia por trás do corte veio de **Egas Moniz**, que desenvolveu a técnica com 
o **neurocirurgião Almeida Lima** em 1935. Ele acreditava que os transtornos mentais
vinham de circuitos cerebrais presos em _loops_ de pensamento fixo entre o tálamo
e o córtex pré-frontal.

Cortar essas conexões, no raciocínio dele, deveria libertar o paciente do próprio
delírio.

## Se funcionou no chimpanzé, por que não no ser humano?

A inspiração veio de um congresso em **Londres**, onde Moniz assistiu à apresentação
de pesquisadores de Yale que haviam removido o córtex pré-frontal de um chimpanzé
agressivo e observado o animal ficar dócil, quase apático. Se funcionava no chimpanzé,
ele concluiu, por que não em humanos?

Na época, a ideia não era uma excentricidade isolada. Moniz publicou os resultados
dos primeiros 20 pacientes em menos de um ano, a comunidade médica internacional
recebeu bem a técnica, e ela se espalhou para dezenas de países em poucos anos.

Em 1949, Moniz recebeu o **Nobel de Fisiologia ou Medicina** pelo desenvolvimento
da leucotomia pré-frontal, descrita pelo comitê como uma descoberta “de valor terapêutico
comprovado”.

Hoje, o procedimento é rejeitado por razões que já estavam visíveis na própria pesquisa
original, mas foram ignoradas. Os 20 casos-base não tinham grupo de controle nem
acompanhamento de longo prazo — limitações que a pesquisa médica já começava a reconhecer,
mas que ainda estavam longe de ser padrão universal.

Parte dos pacientes classificados como “melhorados” por Moniz havia ficado apática
e dócil, não necessariamente mais saudável. Era uma cirurgia irreversível, que destruía
tecido cerebral para tratar sintomas, com taxas de mortalidade de até 20% relatadas
em alguns levantamentos da época.

## A lobotomia e seu impacto no mundo

O impacto foi rápido e global. Nos **Estados Unidos**, o procedimento virou uma 
operação de escala industrial em hospitais públicos superlotados. Havia até um argumento
financeiro explícito: um documento hospitalar de 1941 projetava operar 18 de 1.250
pacientes, a US$ 250 cada, para economizar US$ 351 mil em dez anos com a liberação
de leitos.

Estima-se que cerca de 50 mil lobotomias tenham sido feitas no país entre 1936 e
1972, com benefício real em apenas cerca de 10% dos casos.

A **primeira leucotomia brasileira** foi feita em 25 de agosto de 1936, menos de
um ano depois da operação de Moniz, no Hospital Psiquiátrico do Juquery, em **São
Paulo** — então o maior hospital psiquiátrico da **América Latina** —, pelo neurocirurgião
Aloysio Mattos Pimenta. Só ali, foram cerca de 700 intervenções até 1949.

Um dos médicos brasileiros da época chegou a reportar 24% de “remissões completas
ou melhoras acentuadas” — uma estatística igualmente otimista e sem grupo de controle.
A prática minguou no **Brasil** por volta de 1956, na mesma onda mundial provocada
pela chegada dos primeiros antipsicóticos.

## Egas Moniz correu risco de perder Prêmio Nobel

Moniz nunca recuou publicamente. Em 1954, um ano antes de morrer, publicou **A Leucotomia
Está em Causa**, texto em que apresentava argumentos de defensores e críticos do
método, mas seguia defendendo os benefícios da própria invenção. Ao rebater as críticas
de psiquiatras, filósofos e religiosos, classificou algumas objeções como “misticismo”
sem base científica.

Décadas depois, a contestação chegou ao próprio Nobel: familiares de pacientes lobotomizados
nos Estados Unidos fizeram campanha para que o prêmio recebido por Moniz em 1949
fosse revogado. O pedido não prosperou. O Nobel segue registrado em seu nome, pela“
descoberta do valor terapêutico da leucotomia em certas psicoses”.
