Todos os anos, durante a temporada de chuvas, hospitais da província de Yunnan, no sul da China, se preparam para um tipo curioso e preocupante de ocorrência médica. Pacientes chegam relatando alucinações muito específicas: eles afirmam ver pequenas figuras humanoides, parecidas com elfos ou gnomos, circulando pelo ambiente. O responsável por esses episódios é o Lanmaoa asiatica, um cogumelo tóxico que pode provocar efeitos neurológicos severos quando consumido de forma inadequada.
Diferentemente dos chamados “cogumelos mágicos”, associados ao uso recreativo e à psilocibina, o Lanmaoa faz parte da culinária local e é tratado como uma iguaria regional. Conhecido pelo sabor intenso e rico em umami, o fungo é vendido em mercados e servido em restaurantes. O risco, porém, está no preparo: se não for cozido de maneira rigorosa, ele pode desencadear alucinações intensas e prolongadas.
Para evitar intoxicações, restaurantes tradicionais adotam medidas. Em alguns estabelecimentos, garçons utilizam cronômetros e proíbem os clientes de tocar no prato antes de, no mínimo, 15 minutos de cozimento. A regra é levada a sério, pois o consumo prematuro do cogumelo está diretamente associado aos casos de hospitalização registrados todos os anos na região.
Alucinações repetidas e riscos à saúde
O fenômeno despertou o interesse do pesquisador Colin Domnauer, da Universidade de Utah, nos Estados Unidos. O que mais intriga a comunidade científica é a padronização das alucinações. Enquanto outras substâncias psicodélicas costumam gerar experiências subjetivas, o Lanmaoa asiatica leva diferentes pessoas a descreverem visões muito semelhantes, quase sempre envolvendo seres minúsculos em movimento. Esse tipo de manifestação é classificado como “alucinação liliputiana”, um quadro raro na psiquiatria.
Apesar do tom quase folclórico das descrições, os efeitos são considerados graves. As alucinações podem durar entre 12 e 24 horas e costumam vir acompanhadas de delírios, confusão mental, tontura intensa e perda da noção de realidade, o que frequentemente exige internação hospitalar. Em alguns casos, os pacientes apresentam risco de acidentes e comportamento desorientado.
Testes laboratoriais já descartaram a presença de psilocibina, indicando que o cogumelo atua por meio de um composto químico ainda desconhecido. A falta de identificação dessa substância aumenta a preocupação dos médicos, já que seus efeitos no cérebro humano não são totalmente compreendidos.