O paulistano Raphael Garcia chegou à Bahia Marina, em Salvador, em 22 de agosto, depois de passar 136 dias sozinho no Atlântico Sul. Ele partiu de Lüderitz, na Namíbia, em 8 de abril, repetindo a rota feita por Amyr Klink em 1984. O navegador o esperava no píer.
Garcia batizou de Sater o barco usado na travessia, em homenagem ao cantor Almir Sater. Ele financiou a expedição com recursos próprios e passou quatro anos se preparando, sem procurar patrocinadores. “A dificuldade não é nem remar”, disse. Para ele, o principal desafio foi planejar como contornar os problemas que surgissem no mar.
A ideia começou em 2022, quando Garcia encontrou em um sebo de Foz do Iguaçu o livro Cem Dias entre Céu e Mar, de Klink. Aos 30 anos, ele ainda não sabia que era possível cruzar um oceano a remo. Pesquisou se alguém havia repetido o trajeto entre Lüderitz e a Bahia e, sem encontrar registros, passou a considerar a tentativa.
Antes de se comprometer, dividiu o projeto em etapas e estudou áreas como marinharia e técnica de remo. Procurou clubes, mas acabou comprando um barco costeiro próprio. Também fez curso de vela e viagens costeiras e em mar aberto. Em abril de 2023, começou a desenhar o barco com um arquiteto naval na Inglaterra. A construção teve início em 2024, após a conclusão do projeto no fim do ano anterior. Atrasos de fornecedores, que previam entregas em três ou quatro meses, fizeram o processo levar quase um ano.
Conselhos e dificuldades no percurso
Garcia conversou por telefone com Klink por quase uma hora no fim de 2023, quando morava na Nova Zelândia. Entre os conselhos recebidos, estava instalar uma borda de madeira ao redor do barco para facilitar a movimentação a bordo. Garcia considera a peça crucial.
Em Lüderitz, a autorização para partir levou cerca de um mês. Segundo Garcia, imigração e alfândega tinham dificuldade para enquadrar o Sater, que não tinha vela nem motor. Ele saiu praticamente no mesmo dia em que recebeu a liberação.
A previsão de Garcia era passar 105 dias no mar, mas ele não estabeleceu uma meta de tempo e levou 136. Ele atribui a duração às tempestades enfrentadas ao deixar a Corrente de Benguela e a uma temporada ruim. Em dias de mar agitado, tarefas como recolher o lixo e redistribuir a carga ficavam limitadas a um ou dois dias por semana. Nas tempestades, permanecia na cabine por até cinco dias ou, às vezes, uma semana.
A água era produzida por um dessalinizador, acionado quase diariamente, e a comida era desidratada. Garcia levou seis livros para os períodos de tempestade. Entre os que mais gostou estavam Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, e Kon-Tiki, de Thor Heyerdahl.
Ele também filmou encontros próximos com tubarões e baleias, mas deixou uma GoPro cair no mar e perdeu a maior parte das imagens dos animais. Garcia pretende escrever um livro sobre a expedição e espera publicá-lo até meados de 2027. Após a viagem, recebeu convites para palestras. A próxima expedição poderá ser em um veleiro pequeno ou na Amazônia, mas ele ainda não decidiu.

