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Mundo

A cidade gaúcha onde casas alemãs e uma colônia japonesa dividem o mesmo vale fica a apenas 1 hora da capital

No Rio Grande do Sul, algumas cidades chamam atenção pela influência da imigração europeia. Outras ficaram conhecidas pela presença de comunidades vindas da Ásia. Existe, porém, um município que conseguiu reunir essas duas histórias em um mesmo vale, formando uma identidade cultural rara no Brasil.…

Casas históricas em estilo enxaimel de arquitetura alemã cercadas pela natureza em vale do Rio Grande do Sul.
União de culturas: arquitetura alemã e presença japonesa se destacam em vale charmoso a apenas 1 hora de Porto Alegre.

No Rio Grande do Sul, algumas cidades chamam atenção pela influência da imigração europeia. Outras ficaram conhecidas pela presença de comunidades vindas da Ásia. Existe, porém, um município que conseguiu reunir essas duas histórias em um mesmo vale, formando uma identidade cultural rara no Brasil.

A pouco mais de uma hora de Porto Alegre, o visitante encontra um destino onde construções centenárias dividem espaço com tradições japonesas mantidas por gerações. O resultado é uma combinação pouco comum de arquitetura, gastronomia, patrimônio histórico e qualidade de vida que transformou a cidade em uma das mais singulares do estado.

Ivoti reúne duas heranças culturais que vieram de continentes diferentes

Com cerca de 23 mil habitantes e apenas 63 quilômetros quadrados de área, Ivoti está situada no pé da Serra Gaúcha, a aproximadamente 55 quilômetros da capital gaúcha. Conhecida como Cidade das Flores, ela se destaca por unir duas das mais importantes histórias de imigração do estado.

A influência alemã começou ainda em 1826, quando famílias vindas da região de Hunsrück, no sudoeste da Alemanha, iniciaram a ocupação do vale do Arroio Feitoria. Os irmãos Berghahn foram os primeiros colonizadores a se estabelecer na região, que inicialmente recebeu o nome de Berghanerschneiss, expressão alemã que significa “Picada dos Berghahn”.

Com o desenvolvimento da comunidade e a grande quantidade de flores nativas existentes na região, o povoado passou a ser chamado de Bom Jardim. Somente em 1938 o município adotou oficialmente o nome Ivoti, palavra derivada do tupi-guarani “ipoti”, que significa flor.

Décadas depois, a cidade ganhou uma segunda identidade cultural. Em 1966, chegaram ao município as primeiras famílias japonesas, que se instalaram principalmente no Vale das Palmeiras. Dedicadas ao cultivo de hortaliças e uvas de mesa, elas formaram a maior colônia japonesa do Rio Grande do Sul, característica que permanece até hoje.

O maior conjunto de casas enxaimel do Brasil está em Ivoti

Um dos principais cartões-postais do município é o Núcleo de Casas Enxaimel, localizado em Feitoria Nova. Segundo levantamento da Fundação Nacional Pró-Memória, o local reúne o maior conjunto original de edificações construídas nessa técnica existente no país.

O enxaimel é um sistema construtivo trazido pelos imigrantes alemães. Nele, vigas de madeira ficam aparentes e são unidas por encaixes de madeira, enquanto os espaços entre elas são preenchidos com tijolos ou uma mistura de barro e palha.

O conjunto preserva sete construções erguidas entre o início do século XIX e meados do século XX. Após estudos realizados em 1989, técnicos identificaram que aquele núcleo representava o assentamento mais preservado e autêntico da colonização alemã no Rio Grande do Sul.

Entre 1990 e 2006, toda a área passou por um amplo processo de revitalização. Atualmente, além das residências históricas, o espaço abriga o Museu Municipal, a Casa do Artesão e o Departamento de Turismo de Ivoti.

Outro símbolo do patrimônio histórico local é a Ponte do Imperador. Construída entre 1857 e 1864 sobre o Arroio Feitoria, ela possui 148 metros de extensão e foi erguida com blocos de pedra grés encaixados, utilizando cimento apenas nas três colunas instaladas dentro da água.

A obra recebeu esse nome porque Dom Pedro II destinou 30 contos de réis para financiar sua construção. Apesar da homenagem, não existe registro histórico de que o imperador tenha atravessado a ponte.

Em 1986, o monumento foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) como Patrimônio Histórico Nacional.

A cultura japonesa também ganhou espaço e preserva suas tradições

Quase um século e meio depois da chegada dos primeiros alemães, uma nova comunidade passou a fazer parte da história de Ivoti. As famílias japonesas encontraram no Vale das Palmeiras condições favoráveis para a agricultura e ajudaram a diversificar a produção rural do município.

Hoje, parte desse legado está preservada no Memorial da Colônia Japonesa, espaço dedicado à história da imigração nipônica na cidade.

O local promove feiras realizadas no segundo e no último domingo de cada mês, reunindo alimentos típicos, artesanato e produtos cultivados pelos descendentes dos primeiros imigrantes japoneses da região.

Esse encontro entre duas culturas tão diferentes faz de Ivoti um caso raro no país. Em poucos quilômetros é possível encontrar construções típicas alemãs, jardins floridos, lanternas orientais e tradições preservadas por famílias que chegaram ao Brasil vindas de lados opostos do planeta.

O que conhecer durante uma visita à Cidade das Flores

Boa parte das atrações turísticas fica próxima ao centro urbano, permitindo que o roteiro seja feito em poucas horas, embora muitos visitantes prefiram dedicar um dia inteiro para conhecer a cidade com mais tranquilidade.

Entre os principais pontos estão o Núcleo de Casas Enxaimel, a histórica Ponte do Imperador, o Museu Cláudio Oscar Becker, instalado em uma das construções históricas, o Memorial da Colônia Japonesa e o Mirante Belvedere, que oferece vista para o vale após uma escadaria com 176 degraus.

A gastronomia também reflete essa mistura cultural. Nas feiras coloniais é comum encontrar cucas, roscas, nata, mel, embutidos e linguiças produzidos segundo receitas da imigração alemã. Ao mesmo tempo, as uvas de mesa e hortaliças cultivadas pela comunidade japonesa completam a oferta de produtos típicos da região.

O acesso é simples para quem parte de Porto Alegre. Ivoti está localizada às margens da BR-116, na altura do quilômetro 231, e pode ser alcançada em cerca de uma hora de viagem. Outra alternativa é seguir pela Avenida Presidente Lucena, passando por Estância Velha. Para quem chega de avião, o Aeroporto Internacional Salgado Filho, na capital gaúcha, fica a aproximadamente 46 quilômetros do centro da cidade.

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